Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Thursday, February 22, 2007

Arte Sob Controle

Acredito que tudo na vida pode ser transformado em obra de arte. Um simples amarrar de cadarços, por exemplo. Jamais aprendi a dar nó na cordinha do tênis da maneira usual: fazendo uma bolinha, passando o cadarço em volta e puxando algum fiozinho. Nunca consegui encontrar esse fiozinho. Até hoje, aos 23 anos, amarro meus cadarços da forma mais burra possível: fazendo duas bolinhas e passando uma por cima da outra.

Estou exemplificando minha árdua vida com os cadarços para mostrar que, em minha opinião, todos os que conseguem dar o nó da maneira clássica são verdadeiros artistas. E este aspecto universal e multitarefa da arte não se resume apenas aos tênis. Dar o nó em uma gravata, envolver o interlocutor em um bom papo, limpar uma piscina e montar um saboroso cachorro-quente também são atividades possíveis de virarem obras-primas.

No meu caso, sou um artista do controle remoto. Digo isso com orgulho, mas com certa resignação por não haver um prêmio para os apertadores de botões dos controles remotos. Porque, garanto, eu sairia vencedor. Ninguém, em todo o planeta, mexe em um controle remoto com a mesma destreza que eu. Tenho a capacidade de assistir todos os canais da TV a cabo ao mesmo tempo. Quem consegue isso?

A minha habilidade deve-se a dois fatores: o primeiro é que simplesmente não consigo parar em um canal enquanto não sei o que está passando nos outros. Sei lá, sinto-me inquieto, como se estivesse me contentando com pouco. Só depois de circular, hábil e rapidamente, por todas as emissoras, escolho o programa que mais me interessa.

A segunda razão que aponto como artífice de minha habilidade é a paixão pelo controle remoto. Para se sair bem em alguma tarefa, é preciso amá-la de todas as formas. Eu não amo meus cadarços, por isso não consigo dar o nó clássico. Mas amo meu controle. É a melhor invenção já criada pelo ser humano. Sim, a melhor. Nada de roda, nada de avião, nada de eletricidade. A melhor invenção criada pelo ser humano é o controle remoto.

Existe coisa melhor do que chegar em casa após um dia de trabalho, atirar-se no sofá, tirar os tênis, jogar os pés pra cima, coçar o saco com a mão esquerda e ficar brincando com o controle remoto na mão direita? Esta é a sensação mais relaxante do mundo. E acredito que o seja para todas as pessoas, não apenas os preguiçosos como eu. São os breves instantes nos quais é possível esquecer-se do mundo, ficar alheio a todos os problemas. A vida é simples quando o dedo incessantemente aperta os botões procurando o melhor canal. Só de escrever isso já me sinto mais relaxado.

Claro que, como qualquer relação, meu romance com o controle remoto também tem seus problemas. Dá uma raiva quando o desgraçado some, por exemplo. Acho que este é o único problema do controle remoto. Sedentarismo, obesidade? Nada! Não é a maravilha facilitadora chamada controle que está transformando as pessoas em botos – até parece que se fosse preciso levantar para trocar de canal eu seria anoréxico. O problema do controle é quando ele teima em sumir. Assim como as chaves, o controle tem a capacidade de evaporar e se enfiar, sozinho, em lugares praticamente inacessíveis. E cada minuto longe dele é um minuto de terror, onde a saudade das carícias de seus botões quase esmaga meu coração.

Mas, na maior parte do tempo, é só felicidade. O controle remoto consegue afagar o meu ponto fraco: a preguiça. Ele deixa-a feliz e, portanto, acaba me colocando em estado de puro prazer. O controle remoto é culto, capaz de me ensinar sobre os mais diversos assuntos; divertido, sempre pronto pra me fazer rir; e um verdadeiro amigo, pois nunca me abandona, exceto quando as pilhas acabam.

E, acima de tudo, é o instrumento com o qual produzo minhas obras-primas. Sem ele, eu seria apenas um pretenso literato. Com ele, posso me colocar ao lado de grandes como Da Vinci, Michelangelo, Shakespeare. Ou até acima. Nenhum deles dominou a arte de zapear como eu.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

cara também não consigo amarrar os malditos cadarços até hoje. Pensei que fosse apenas eu.

9:03 AM  
Anonymous Anonymous said...

eu tbm,vida cruel --',nao consiguo nem fazer as malditas bolinhas,geralmente enfio os cadarços no tenis e pronto,mais fcia saindo ^^

9:23 PM  
Blogger Joany said...

This comment has been removed by the author.

4:19 PM  

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