Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Monday, January 09, 2012

Melhores do Ano 2011


Então, pessoal, pra quem interessar, segue a minha lista dos melhores filmes de 2011. Vale lembrar que são os melhores (na minha opinião, que fique claro) que estrearam nos cinemas do Brasil no ano passado. Ou seja, alguns filmes são de 2010, mas chegaram aqui em 2011, então estão na lista.

Segue, em ordem crescente de preferência:

14. Bravura Indômita (True Grit) - EUA

Ainda que não possua a originalidade típica dos irmãos Coen, é um filme espetacularmente realizado. Excelente dinâmica entre os personagens, diálogos afiados, interpretações de alto nível, belíssima fotografia, humor e violência no equilíbrio certo. Muito superior ao original.

13. Jogo de Poder (Fair Game) - EUA

Além de ser importante e corajoso por sua temática, trata-se de um filme com bons valores cinematográficos: uma trama bem desenvolvida, que maneja bem o lado político e o pessoal, uma direção sem afetações e belíssimas interpretações de Sean Penn e Naomi Watts.

12. Tudo pelo Poder (The Ides of March) – EUA

George Clooney acerta mais uma vez atrás das câmeras, em um filme extremamente inteligente tanto no roteiro quanto em sua condução. Dilemas morais, reflexões éticas, crítica política, tudo apresentado por um elenco de alto nível, em excelente forma.

11. Em um Mundo Melhor (Haevnen) – Dinamarca/Suécia

É um belo filme, contado com maturidade, com relacionamentos e personagens bem construídos, cujas motivações sempre ficam claras ao espectador. O final pode parecer "feliz" demais, mas não diminui a satisfação de acompanhar uma história bem narrada.

10. O Palhaço - Brasil

Ao mesmo tempo divertido e melancólico, ágil e sensível, demonstra a maturidade de Selton Mello como realizador, um cineasta capaz de criar um universo quase próprio, repleto de ternura e personagens únicos, onde a arte dita as regras.

9. Namorados para Sempre (Blue Valentine) – EUA

Derek Cianfrance consegue algo raro em seu filme: a verdade. Há verdade no sentimento entre os personagens, há verdade na abordagem e há verdade nas atuações de Ryan Gosling e Michelle William. Um filme honesto e duro sobre o amor, sem as idealizações comuns do cinema americano.

8. Incêndios (Incendies) - Canadá

A narrativa cuidadosa e lenta pode arrastar o filme em alguns momentos, mas acaba se revelando importante para o impacto da resolução. Uma obra que, ainda que não explore como poderia a reflexão do contraste cultural, possui inegável força em sua história e faz a plateia pensar.

7. Árvore da Vida (The Three of Life) - EUA

O sentido da hipnotizante poesia de Terrence Malick será discutido por muitos anos e provavelmente gerará centenas de interpretações. Por enquanto, o que fica é uma experiência sensorial e artística única, reflexiva e contemplativa, diante da qual é impossível ficar indiferente. Algumas das mais belas imagens do ano estão em Árvore da Vida.

6. O Garoto da Bicicleta (Le Gamin au Vélo) - França

Um belíssimo estudo de personagem orquestrado pelos irmãos Dardenne, que conseguem transmitir os conflitos internos do jovem protagonista sem apelar a exposições ou fáceis recursos narrativos. Os longos planos transmitem o naturalismo necessário, assim como as boas atuações.

5. Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole) - EUA

A dor e como lidar com ela. John Cameron Mitchell constrói um filme de muita sensibilidade, evitando os lugares-comuns e trazendo os sentimentos dos personagens à pele do espectador. Nicole Kidman e Aaron Eckhart estão impecáveis e ajudam a criar momentos de emoção genuína.

4. Poesia (Shi) – Coréia do Sul

Como encontrar beleza em uma existência onde ela não parece existir? A metáfora da poesia é perfeita para a história da protagonista, em um filme melancólico e sensível, que emociona sem resvalar em qualquer espécie de sentimentalismo ou melodrama. Nem mesmo a longa duração incomoda.

3. A Pele que Habito (La Piel que Habito) – Espanha

Pedro Almodóvar volta ao seu melhor em um filme original do início ao fim, com uma trama surpreendente e até mesmo bizarra, que só poderia ser levada às telas por um cineasta de seu talento. A narrativa é bem pensada e espetacularmente construída, sendo capaz de perturbar enquanto propõe reflexões.

2. Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) – Espanha/EUA

Woody Allen em um dos melhores momentos de toda a sua carreira, em uma homenagem à cultura e a arte, com questões sobre nossa relação com o tempo e com o passado. Diálogos inspiradíssimos e boas atuações (especialmente dos coadjuvantes) em um filme encantador, divertido e repleto de charme.

1. Cisne Negro (Black Swan) – EUA

A nova obra-prima de Darren Aronofsky versa sobre a obsessão jogando o espectador em uma espiral rumo à loucura. O cineasta filma sua história como uma verdadeira dança, um balé, com a câmera praticamente dançando em uma coreografia que ressalta o aspecto trágico da história de Nina e a sua ruptura em busca da perfeição. Há momentos de grande força, como a apresentação final, e uma performance inesquecível de Natalie Portman.

Friday, April 08, 2011

O outro lado da tragédia.

Por Silvio Pilau

O ser humano é, por essência, uma criatura surpreendente. Ontem, o Brasil – e, por extensão, o mundo – foi surpreendido mais uma vez pela atitude de um exemplar da espécie dominante deste planeta. O jovem Wellington de Oliveira Menezes, 23 anos, invadiu uma escola portando dois revólveres e realizou uma chacina no local, assassinando de forma covarde, brutal e incompreensível nada menos do que doze crianças.

Crianças. Um crime hediondo destes já causaria comoção e repulsa caso fosse realizado contra uma dúzia de adultos, mas o atirador escolheu, como vítimas, crianças inocentes que, no momento, nada faziam além de estudar para um dia, quem sabe, realizarem os seus sonhos. São sonhos que, agora, jamais se tornarão realidade, interrompidos por uma atitude inconcebível para, assim espero, todos nós.

Como não poderia deixar de ser, a tragédia de Realengo gerou centenas de opiniões e discussões sobre os mais diversos temas. Boa parte dos textos que li sobre o ocorrido – alguns muito bons, por sinal – invariavelmente acabam versando sobre uma espécie de desilusão em relação à raça humana: se um de nós é capaz de cometer um ato desses, que esperança temos para o futuro?

De certo modo, é até difícil formar um contraponto aos que defendem esta bandeira. Nem é o que pretendo. Nada, mas nada mesmo, justifica o assassinato de doze crianças que provavelmente ainda eram incapazes de entender qualquer que fosse o problema que o assassino enfrentava. No entanto, uma posição alarmista e desesperançosa como imaginar que a humanidade não possui salvação por que um homem perturbado cometeu algo inimaginável me parece um tanto exagerada.

Somos todos complexos. Rótulos, por mais adequado que sejam na hora de criarmos uma definição sobre alguém, são superficiais. O ser humano, sem exceção, possui tanto a capacidade de perpetrar atos egoístas e mesquinhos quanto de promover atitudes de compreensão e solidariedade. O convívio social, a evolução do pensamento e o desenvolvimento da civilização como um todo fizeram com que fôssemos, com o tempo, controlando o nosso lado “ruim” em prol da possibilidade de uma vida em sociedade.

Porém, casos como o de ontem surgem para nos lembrar que existe este aspecto da nossa natureza. E, infelizmente, são estes os acontecimentos que mais chamam a atenção. A mídia vende o sangue originado destas situações e a população delicia-se neste banho vermelho, mesmo que jamais consiga compreender tudo o que há por trás daquilo tudo. Os assuntos dominam e estão em qualquer lugar: jornais, revistas, televisão. Se há uma tragédia, há espaço para ela.

Mas há, felizmente, há um outro lado para uma tragédia como esta. Um lado que não ganha as capas de jornais, que não ocupa o tempo da redação das revistas e que não é apresentado por William Bonner e Fátima Bernardes todas as noites. É o lado dominado por pequenos atos de bondade e de altruísmo, no qual o ser humano se engrandece ao esquecer de si mesmo por alguns instantes para pensar no próximo. Um lado dominado pela beleza e pela consciência de que, por compartilharmos o mesmo tempo e espaço, somente poderemos evoluir se apoiarmos uns aos outros.

Não falo de casos tão específicos como a ajuda às vítimas terremotos do Japão, por exemplo, que mobilizou milhões de pessoas em todo o mundo. Falo dos pequenos acontecimentos quase impercebíveis do dia a dia, que não chamam a atenção do planeta. Atos intrínsecos de benevolência, como ajudar alguém com dificuldades a atravessar a rua, prestar um favor sem qualquer benefício próprio ou simplesmente doar sangue. São eventos que ocorrem milhões de vezes todos os dias, em todos os lugares do mundo, e que demonstram existir no ser humano uma disposição à humanidade.

Sonho – inclusive até já cogitei escrever um conto sobre isso – com uma emissora de televisão que tenha a coragem de exibir um telejornal no qual jamais seriam apresentadas notícias ruins ou tragédias. A pauta, pelo contrário, seria formada unicamente por histórias de felicidade e momentos de solidariedade: o primeiro beijo de um casal apaixonado, uma mãe lendo uma história de ninar para seu filho, a dedicação de um professor no ensinamento aos seus alunos, mesmo mal pago para isso.

Sei que um programa como esse jamais será veiculado. Mas também sei – todos sabemos – que estes pequenos momentos ocorrem diariamente. São eles que fazem a gente seguir adiante e são eles que fizeram com que a humanidade evoluísse até aqui. E, acreditem, evoluímos.

Repito que o ser humano é, por essência, uma criatura surpreendente. No caso de ontem, surpreendeu de forma negativa. Mas, quem sabe, o acontecimento faça com que voltemos a ser surpreendidos por atos de poesia e de bondade que hoje nos passam desapercebidos.

Podem ter certeza de que eles existem.

Friday, January 21, 2011

Por que eu sou ateu


De Ricky Gervais

Por que você não acredita em Deus? As pessoas me perguntam isso toda hora. Eu sempre tento dar uma resposta sensível, racional. Isso normalmente é embaraçoso, inútil e uma perda de tempo. Pessoas que acreditam em Deus não precisam de uma prova de Sua existência e elas certamente não querem evidências do contrário. Elas estão felizes com sua crença. Até dizem coisas do tipo “é verdadeiro para mim” e “é a fé”. Eu ainda dou minha resposta lógica porque acredito que não ser honesto seria condescendente e rude. É irônico, por consequência, que “eu não acredito em Deus porque não existe qualquer prova científica da sua existência e porque pelo que eu sei a própria definição Dele é uma impossibilidade lógica neste universo conhecido” acabe por soar tanto condescendente quanto rude.

Arrogância é outra acusação. O que me parece particularmente injusto. A Ciência busca a verdade. E ela não discrimina. Para melhor ou para pior, ela descobre as coisas. A Ciência é humilde. Ela sabe o que ela sabe e ela sabe o que ela não sabe. Ela baseia suas conclusões e crenças em fortes evidências – evidências que são constantemente atualizadas e melhoradas. Ela não fica ofendida quando surgem novos fatos. Ela abraça todo o corpo do conhecimento. Ela não se apoia em práticas medievais porque elas são tradição. Se fizesse isso, você não teria uma vacina de penicilina, colocaria uma sanguessuga dentro das suas calças e rezaria. Em qualquer coisa que você “acreditar”, ela não será tão eficiente quanto a medicina. De novo, você pode dizer, “Funciona pra mim”, mas os placebos também funcionam. O que estou dizendo é que Deus não existe. Não estou dizendo que a fé não existe. Eu sei que a fé existe. Eu a vejo toda hora. Mas acreditar em algo não faz com que este algo seja real. Esperar que algo seja verdade não faz com que este algo seja verdade. A existência de Deus não é subjetiva. Ele ou existe ou não existe. Não é uma questão de opinião. Você pode ter as suas próprias opiniões. Mas você não pode ter os seus próprios fatos.

Por que eu não acredito acredito em Deus? Não, não, por que VOCÊ acredita em Deus? Certamente o fardo da prova está no crente. Você começou isso tudo. Se eu chegasse para você e dissesse “Por que você não acredita que eu possa voar”, você diria “Por que eu acreditaria?”. Eu responderia “Porque é uma questão de fé”. Se então eu dissesse “Prove que eu não posso voar. Prove. Viu, você não consegue, consegue?”, você provavelmente ou se afastaria de mim, chamaria a segurança ou me jogaria pela janela, gritando “Voe, então, seu maldito lunático”.

Isto é, claro, uma questão espiritual. Religião é um assunto diferente. Como um ateu, não vejo nada de “errado” em acreditar em um deus. Eu não acredito que exista um deus, mas a crença nele não faz mal algum. Se ajuda você de alguma forma, então está tudo bem por mim. É quando a crença começa a infringir os diretos de outras pessoas que eu começo a me preocupar. Eu jamais negaria o seu direito de acreditar em um deus. Eu só preferiria que você não matasse pessoas que acreditam em um deus diferente. Ou apedrejasse pessoas até a morte porque o seu livro de regras diz que a sexualidade deles é imoral. É estranho que qualquer um que acredita que um ser todo-poderoso, onisciente e responsável por tudo o que acontece também gostaria de julgar e punir pessoas pelo que elas são. Pelo que eu compreendo, o pior tipo de pessoa que você pode ser é um ateu. Os primeiros quatro mandamentos batem nessa tecla. Existe um deus, eu sou ele, ninguém mais é, você não é bom e não esqueça disso (não assassine alguém só recebe uma menção no número 6).

Quando confrontado por alguém que enxerga a minha falta de fé religiosa com desprezo, eu respondo: “Foi assim que Deus me fez”.

Mas do que os ateus estão realmente sendo acusados?

A definição de Deus no dicionário é a de “um criador sobrenatural e observador do universo”. Incluídos nesta definição estão todas as deidades, deusas e seres sobrenaturais. Desde o início da história documentada, definida pela invenção da escrita pelos sumérios aproximadamente 6.000 anos atrás, os historiadores catalogaram mais de 3.700 seres sobrenaturais, dos quais 2.870 podem ser consideradas deidades.

Então, da próxima vez que alguém me disser que acredita em Deus, eu direi: “Oh, em qual? Zeus? Hades? Júpiter? Marte? Odin? Thor? Krishna? Vishnu? Ra?” E se a pessoa disser “Apenas Deus. Eu apenas no Deus único”, eu direi que ela é quase tão atéia quanto eu. Eu não acredito em 2.870 deuses e ela não acredita em 2.869.

Eu costumava acreditar em Deus. O Deus cristão, digo.

Eu amava Jesus. Ele era meu herói. Mais do que popstars. Mais do que jogadores de futebol. Mais do que Deus. Deus era, por definição, onipotente e perfeito. Jesus era um homem. Ele tinha que trabalhar isso. Ele tinha tentações, mas derrotou o pecado. Ele tinha integridade e coragem. Mas Ele era meu herói porque era bondoso. E era bondoso com todo mundo. Ele não se curvou à pressão, à tirania ou à crueldade. Ele não se importava com quem você era. Ele amava você. Que cara. Eu queria ser exatamente como ele.

Um dia, quando eu tinha mais ou menos oito anos de idade, estava desenhando a crucificação como tarefa de casa dos meus estudos da bíblia. Eu amava arte também. E natureza. Eu amava como Deus tinha feito todos os animais. Eles também eram perfeitos. Incondicionalmente belos. Era um mundo incrível.

Eu morava em um conjunto muito pobre, de operários, em um centro urbano chamado Reading, 40 milhas a oeste de Londres. Meu pai era um trabalhador e minha mãe uma dona de casa. Eu nunca tive vergonha da pobreza. Era quase nobre. Além disso, todo mundo que eu conhecia estava na mesma situação e eu tinha tudo o que precisava. Escola era de graça. Minhas roupas eram baratas e sempre limpas e passadas. E minha mãe estava sempre cozinhando. Ela estava cozinhando no dia que eu estava desenhando a cruz.

Eu estava sentado na mesa da cozinha quando meu irmão chegou em casa. Ele era 11 anos mais velho do que eu, então deveria ter 19. Ele era tão inteligente quanto todo mundo que eu conhecia, mas era provocador. Ele sempre respondia de volta e se metia em encrenca. Eu era um bom garoto. Eu ia à igreja e acreditava em Deus – um alívio para uma mãe da nossa classe. Crescendo onde eu cresci, as mães não tinham esperança de que seus filhos se tornassem médicos; elas apenas esperavam que seus filhos não fossem para a cadeia. Então, crie-os acreditando em Deus e eles serão pessoas boas e cidadãos corretos. É um sistema perfeito. Bem, quase. 75% dos americanos são cristãos tementes a Deus; 75% dos prisioneiros são cristãos tementes a Deus. 10% dos americanos são ateus; 0.2% dos prisioneiros são ateus.

Mas, enfim, lá estava eu desenhando bem feliz o meu herói quando meu irmão Bob me perguntou: “Por que você acredita em Deus?” Uma pergunta simples. Mas minha mãe entrou em pânico. “Bob”, ela disse em um tom que eu sabia que significava “Cale a boca”. Por que aquilo era uma coisa ruim para se perguntar? Se Deus existia e a minha fé era forte o bastante, não importava o que os outros dissessem.

Opa, espera aí. Deus não existe. Ele sabe e minha mãe, no fundo, sabia. Era simples assim. Eu comecei a pensar sobre isso e a me questionar ainda mais e, dentro de uma hora, eu era um ateu.

Uau. Nada de Deus. Se a minha mãe tinha me mentido sobre Deus, teria ela também mentido sobre o Papai Noel? Sim, claro, mas quem se importa? Os presentes continuavam vindo. Assim como vinham os presentes do meu recém-descoberto ateísmo. Os presentes da verdade, ciência, natureza. A verdadeira beleza deste mundo. Eu aprendi sobre a evolução – uma teoria tão simples que apenas o maior gênio da Inglaterra poderia desenvolver. Evolução das plantas, dos animas e de nós mesmos – com imaginação, livre-arbítrio, amor e humor. Eu não precisava mais de um motivo para a minha existência, mas apenas de uma razão para viver. E imaginação, livre-arbítrio, amor, humor, diversão, música, esportes, cerveja e pizza são razões suficientemente boas para viver.

Mas viver uma viva honesta – para isso você precisa da verdade. Esta é a outra coisa que aprendi naquele dia, que a verdade, ainda que chocante ou desconfortável, leva ao final para a liberação e a dignidade.

Então o que a pergunta “Por que você não acredita em Deus?” realmente significa? Eu acho que quando alguém pergunta isso a pessoa está na verdade questionando sua própria fé. De certo modo, ela está perguntando “O que faz de você alguém especial? Como você não passou pela mesma lavagem cerebral que o resto de nós? Como você ousa dizer que eu sou um idiota e não vou pro céu? Foda-se”. Sejamos sinceros, se uma única pessoa acreditasse em Deus, ela seria considerada muito estranha. Mas, por ser uma visão popular, ela é aceita. E por que é uma visão tão popular? Isso é óbvio. É uma proposta atraente. Acredite em mim e viva para sempre. Novamente, se fosse apenas um caso de espiritualidade, estaria tudo bem.

“Faça aos outros…” é uma boa regra para seguir. Eu vivo de acordo com ela. Perdão é provavelmente a maior virtude que existe. Mas é exatamente o que ela é – uma virtude. Não somente uma virtude cristã. Ninguém possui ser bom. Eu sou bom. Eu só não acredito que serei recompensado por isso no paraíso. Minha recompensa é aqui e agora. É saber que eu tento fazer a coisa certa. Que eu vivi uma boa vida. E é aí que a espiritualidade realmente se perde. Quando se torna um pedaço de pau para bater nas pessoas. “Faça isso ou você vai queimar no inferno.”

Você não vai queimar no inferno. Mas seja bom de qualquer jeito.

Tuesday, January 04, 2011

Melhores e Piores 2010

PIORES FILMES DO ANO

10) O Lobisomem (The Wolfman) – EUA/Inglaterra
Se até a maquiagem é duvidosa, o que esperar do resto? Infelizmente, história sem lógica, personagens insossos, efeitos especiais amadores e cenas de ação de dar sono. Para piorar, Benicio Del Toro e Emily Blunt estão em seus piores momentos.

9) Os Mercenários (The Expendables) – EUA
A homenagem de Stallone ao cinema-testosterona da década de 80 acabou ficando pela metade. Por mais que tenha um ou outro momento no qual acerta no tom de brincadeira, a maior parte do filme é feita por piadas sem graça, ditas por personagens insossos, e por cenas de ação incrivelmente mal filmadas e incompreensíveis. Uma pena.

8) Querido John (Dear John) – EUA
Channing Tatum e Amanda Seyfried não possuem qualquer química juntos, o que é crucial para um romance. Para piorar, Hallström conduz tudo com excesso de sacarose, entregando um filme cansativo e artificial, que jamais atinge uma emoção sincera

7) Criação (Creation) - Inglaterra
Inaceitável o fato de que os aspectos mais interessantes da história de Charles Darwin tenham sido deixados de lado pela enfadonha trama sobre a filha, que é conduzida com mão extremamente pesada por Jon Amiel. Um filme mal-costurado, cansativo e decepcionante.

6) O Último Mestre do Ar (The Last Airbender) - EUA
Surpreendentemente, a única coisa que funciona são as cenas de ação, ainda que repetitivas. De resto, uma história caótica, diálogos risíveis e uma construção precária daquele mundo, que jamais convence. A queda gradual de M. Night Shyamalan é algo impressionante.

5) A Caixa (The Box) - EUA
A interessante premissa rende um primeiro ato eficiente, mas Richard Kelly arruina tudo quando tenta explicar os acontecimentos. A partir daí, o roteiro abandona qualquer sentido e chega a dar vergonha em alguns momentos. Bizarro, e não no bom sentido.

4) Amelia – Canadá/EUA
O pioneirismo da protagonista se torna uma novela tola nas mãos de Mira Nair, que jamais consegue descobrir quem foi Earhart. Narrativamente pobre, com um roteiro que não é capaz dar credibilidade às situações. Nem mesmo a ótima Hilary Swank consegue salvar.

3) Legião (Legion) - EUA
Difícil dizer o que é pior: se os exageros de Dennis Quaid, as cenas involuntariamente cômicas, o roteiro furado, os fraquíssimos efeitos ou a falta de imaginação diante de um tema cheio de possibilidades.

2) Idas e Vindas do Amor (Valentine’s Day) – EUA
Nada funciona nessa comédia romântica: histórias óbvias, completamente sem emoção; falta de ritmo, com tramas paralelas que jamais fluem; diálogos embaraçosos; piadas sem graça. Nem mesmo o elenco estelar consegue salvar o desastre.

1) Tiras em Apuros (Cop Out) - EUA
Kevin Smith no fundo do poço de sua carreira. O irreverente e provocativo cineasta dos anos noventa se entrega ao cinema comercial nesta história caótica, na qual nada funciona. Tracy Morgan é irritante, a trama é uma bagunça, as piadas causam vergonha e os lugares-comuns transbordam. O detentor do troféu de pior filme do ano.

Filmes que quase entraram na lista dos piores

Encontro Explosivo (Knight and Day) - EUA

O Fada do Dente (Tooth Fairy) – Canadá/EUA

Fúria de Titãs (Clash of the Titans) – Inglaterra/EUA

Cadê os Morgans? (Did You Hear About the Morgans?) - EUA

Sherlock Holmes - EUA

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones) – EUA/Nova Zelândia/Inglaterra

Predadores (Predators) - EUA

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MELHORES FILMES DO ANO

10) A Fita Branca (Das Weisse Band) – Alemanha/Áustria/França/Itália
Michael Haneke novamente apresenta a sua visão nada esperançosa em relação à natureza humana, porém, desta vez, de forma esteticamente exemplar. É o seu filme mais belo e bem filmado, mesmo que não seja o mais provocante - e pudesse ser um pouco mais curto.

9) Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are) - EUA
Uma narrativa repleta de significados e simbolismos sobre as dificuldades do crescimento e o poder de imaginação da infância, sempre contada com o frescor e a originalidade de Spike Jonze. Bonito, sensível e muito bem realizado. Os monstros são um achado.

8) O Profeta (Um Prophète) – França/Itália
Digna de figurar entre as grandes sagas do crime, a jornada de Malik é real, gradual e bem construída, apoiada em ótimos personagens e atuações. Jacques Audiard ainda mostra um olhar diferenciado ao apostar em uma história com significados, como a parábola religiosa. Um grande filme.

7) À Prova de Morte (Death Proof) - EUA
Um filme que somente Quentin Tarantino poderia fazer. Mais que uma homenagem, traz a essência de seu cinema, com a criação de um mundo totalmente tarantinesco, longos diálogos, violência, humor negro e fortes personagens femininos. Diversão pura do início ao fim.

6) O Escritor Fantasma (The Ghost Writer) – Alemanha/França/Inglaterra
O roteiro é bem amarrado e as atuações eficientes, mas é o comando de Roman Polanski que faz do filme uma obra acima da média. A construção da atmosfera angustiante é praticamente perfeita, assim como a utilização da câmera de modo a transmitir veracidade. Os cinco minutos finais são fabulosos.

5) Mary e Max – Uma Amizade Diferente (Mary and Max) - Austrália
Divertida e tocante animação repleta de pequenas boas ideias. Adam Elliot aborda temas difíceis como solidão, depressão, alcoolismo e suicídio com leveza e sensibilidade, ainda com belas soluções visuais. Emoção, inteligência e humor na medida certa.

4) Tropa de Elite 2 - Brasil
José Padilha justifica esta sequência ao não apostar apenas na repetição do que deu certo no original, mas fazendo a história evoluir. Porém, mais do que isso, é uma obra complexa em sua narrativa e executada com precisão, capaz de entreter e indignar.

3) Toy Story 3 - EUA
O roteiro consegue falar com adultos que já viveram a passagem do tempo e com as crianças. Excelentes pequenas ideias e uma longa sequência de fuga executada impecavelmente. Terno, sensível, emocionante. O melhor da trilogia.

2) A Rede Social (The Social Network) - EUA
Mais que um roteiro brilhante, com diálogos inteligentes e personagens complexos, mais que uma direção magnífica, com cenas impecáveis e arriscada estrutura, e mais que bem atuado, o filme traz a crônica da primeira década do novo milênio. Será lembrado como símbolo de uma época.

1) A Origem (Inception) – EUA/Inglaterra
Um filme construído sobre excelentes ideias, explorando-as de forma impecável, com uma execução nada menos que espetacular. Uma trama repleta de camadas, que ainda dá espaço aos personagens. O tipo de filme que dá vontade de estar sonhando para que durasse mais.

Filmes que quase entraram na lista dos melhores

Mother – A Busca pela Verdade (Madeo) – Coréia do Sul

Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass) – EUA/Inglaterra

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland) - EUA

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos) – Argentina/Espanha

Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire) - EUA

Ilha do Medo (Shutter Island) - EUA

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MELHOR DIRETOR

1) Roman Polanski (O Escritor Fantasma)
2) Michael Haneke (A Fita Branca)
3) Martin Scorsese (Ilha do Medo)
4) Christopher Nolan (A Origem)
5) David Fincher (A Rede Social)
6) Quentin Tarantino (À Prova de Morte)

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MELHOR ATOR

1) Jeff Bridges (Coração Louco)
2) Ricardo Darín (O Segredo dos Seus Olhos)
3) Leonardo DiCaprio (Ilha do Medo)
4) Jesse Eisenberg (A Rede Social)
5) Wagner Moura (Tropa de Elite 2)

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MELHOR ATRIZ

1) Naomi Watts (Destinos Ligados)
2) Noomi Rapace (Os Homens que Não Amavam as Mulheres)
3) Carey Mulligan (Educação)
4) Gabourey Sidibe (Preciosa – Uma História de Esperança)
5) Mo’nique (Preciosa – Uma História de Esperança)

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REVELAÇÃO DO ANO

Chloe Moretz – A Hit Girl de Kick-Ass – Quebrando Tudo

Noomi Rapace – A Lisbeth Salander de Os Homens que Não Amavam as Mulheres

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MELHOR CENA DO ANO

O plano-sequência da perseguição no estádio em O Segredo dos seus Olhos.

O plano final em O Escritor Fantasma.

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SURPRESA DO ANO

Mary e Max – Uma Amizade Diferente

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DECEPÇÃO DO ANO

Um Olhar do Paraíso

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FILME MAIS SUPERESTIMADO DO ANO

Atração Perigosa (The Town)

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FILME MAIS SUBESTIMADO DO ANO

Alice no País das Maravilhas

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MELHOR PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Bill Murray (Zumbilândia)

Tuesday, December 07, 2010

Filmes de Dezembro

Planeta Terror (Planet Terror) – EUA, 2007
De Robert Rodriguez. Com Freddy Rodríguez, Rose McGowan, Josh Brolin, Marley Shelton, Michael Biehn, Naveen Andrews, Bruce Willis, Quentin Tarantino, Jeff Fahey e Fergie.
Quem compra a proposta de Rodriguez tem tudo para se divertir imensamente. Sangue e tripas para todo lado, mulheres seminuas, diálogos engraçados de tão ridículos e cenas realmente criativas. Sem contar, claro, uma das imagens mais icônicas do cinema nesta década: Rose McGowan com uma metralhadora no lugar da perna.
Nota: 8.0

Um Parto de Viagem (Due Date) – EUA, 2010
De Todd Phillips. Com Robert Downey Jr., Zach Galifianakis, Michelle Monaghan, Jamie Foxx, Juliette Lewis e Danny McBride.
Phillips e Galiafinakis não conseguem repetir o sucesso de Se Beber, Não Case. Mesmo com o talento dos protagonistas, o material irregular, combinando momentos inspirados e outras piadas constrangedoras, sem contar o fato de ser pouco original, reaproveitando ideias já usadas. Considerando-se o talento envolvido, poderá ser muito mais.
Nota: 5.0

Atração Perigosa (The Town) – EUA, 2010
De Ben Affleck. Com Ben Affleck, Jeremy Renner, Rebecca Hall, Blake Lively, Chris Cooper, John Hamm e Pete Postlethwaite.
Qualquer mensagem que Affleck tivesse a intenção de transmitir sobre a sua cidade natal ficou perdida em meio a uma trama que jamais se conecta com o espectador, na qual os personagens parecem distantes e a emoção é nula. De quebra, a trama é previsível e nem mesmo o trabalho de direção correto justifica a boa recepção da crítica norte-americana. Seu primeiro esforço atrás das câmeras, Medo da Verdade, é melhor.
Nota: 5.0

A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Succes) – EUA, 1957
De Alexander Mackendrick. Com Tony Curtis, Burt Lancaster e Susan Harrison.
A trilha, as atuações de Tony Curtis e Burt Lancaster e a direção são todas impecáveis, mas é o roteiro ácido e irônico que faz do filme uma verdadeira obra-prima. Indiscutivelmente um dos mais perfeitos textos do cinema norte-americano, com diálogos nada menos que geniais.
Nota: 9.0

Vingança (Revenge) – EUA, 1990
De Tony Scott. Com Kevin Costner, Anthony Quinn, Madeleine Stowe e Miguel Ferrer.
O ritmo propositadamente lento é uma faca de dois gumes, pois deixa o romance se desenvolver de forma eficaz enquanto tornando o filme cansativo. O terceiro ato, que justifica o título, é o mais fraco, parecendo desconexo de tudo o que havia acontecido até então e jamais entregando a carga emocional que promete.
Nota: 6.0

Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass) – EUA/Inglaterra, 2010
De Matthew Vaughn. Com Aaron Johnson, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Nicolas Cage e Chloe Moretz.
O filme seminal sobre o atual momento em que ser nerd virou cool. As milhares de referências pop dão o tom desta bobagem divertidíssima, que combina de forma exemplar ingenuidade com um tom politicamente incorreto. Hit Girl tem tudo para se tornar um ícone.
Nota: 8.0

O Filho de Rambow (The Son of Rambow) – Alemanha/França/Inglaterra, 2007
De Garth Jennings. Com Bill Milner, Will Poulter e Jessica Hynes.
O coração da história de amizade infantil se perde em meio aos clichês e a direção desleixada, capaz de criar cenas vergonhosas, típicas de filmes amadores. Há uma boa ideia na premissa e momentos interessantes, mas Jennings não se mostra um bom realizador, entregando uma obra extremamente irregular.
Nota: 5.0

A Marca da Maldade (Touch of Evil) – EUA, 1958
De Orson Welles. Com Charlton Heston, Orson Welles, Janet Leigh, Ray Collins e Marlene Dietrich.
O roteiro tem mais a oferecer do que o mero enredo, mas o filme é grandioso por outra razão: a direção de Welles. Do magnífico plano-sequência inicial à cena final, trata-se de um dos mais impressionantes trabalhos de câmera da história do cinema. Mais uma prova da genialidade do cineasta.
Nota: 8.0

Aguirre, A Cólera dos Deuses (Aguirre, Der Zorn Gottes) – Alemanha, 1972
De Werner Herzog. Com Klaus Kinski, Helena Rojo e Ruy Guerra.
Um filme que falha em atingir os objetivos tanto em sua execução, arrastada, quanto na mensagem, sem foco. Kinski é hipnotizante e a autenticidade do que se vê na tela é única, porém a jornada de obsessão e loucura proposta por Herzog já foi retratada nas telas de forma melhor e mais atraente.
Nota: 5.0

A Fita Branca (Das Weisse Band) – Alemanha/Áustria/França/Itália, 2009
De Michael Haneke. Com Christian Friedel, Ernst Jacobi e Ulrich Tukur.
Concordando ou não com a posição do cineasta, Haneke novamente tem algo a dizer, apresentando a sua visão nada esperançosa em relação à natureza humana. Desta vez, de quebra, em um filme esteticamente exemplar. É a sua obra mais bela e bem filmada, mesmo que não seja a mais provocante - e pudesse ser um pouco mais curta.
Nota: 8.0

Red – Aposentados e Perigosos (Red) – EUA, 2010
De Robert Schwentke. Com Bruce Willis, John Malkovich, Mary-Louise Parker, Helen Mirren, Morgan Freeman, Karl Urban, Brian Cox, Ernest Borgnine e Richard Dreyfuss.
Se a trama é capenga e as cenas de ação genéricas (salvo raras exceções, como a de Bruce Willis saindo do carro), o carisma do elenco e dos personagens dão conta do recado, fazendo do filme uma diversão eficiente e sem qualquer compromisso.
Nota: 6.0

Monstros (Freaks) – EUA, 1932
De Tod Browning. Com Wallace Ford, Josephine Joseph e Violet Hilton.
Quem são as verdadeiras aberrações? Qual a linha que separa os monstros de quem se julga normal? Mesmo quase oitenta anos após o lançamento, o filme de Browning segue atual nas questões que levanta, tendo mais a oferecer do que apenas o choque pelo elenco inusitado.
Nota: 7.0

Redes do Crime (What Doesn’t Kill You) – EUA, 2008
De Brian Goodman. Com Mark Ruffalo, Ethan Hawke, Amanda Peet, Donnie Wahlberg e Brian Goodman.
Trata-se de uma história já vista outras vezes e que pouco faz para atingir alguma originalidade, sem contar o ritmo irregular. Por outro lado, há sensibilidade na forma de retratar os dilemas do protagonista (provavelmente pelo fato de ser uma história autobiográfica) e o elenco, especialmente Ruffalo, está ótimo.
Nota: 6.5

Tiras em Apuros (Cop Out) – EUA, 2010
De Kevin Smith. Com Bruce Willis, Tracy Morgan, Ana de la Reguera, Kevin Pollak e Adam Brody.
Kevin Smith no fundo do poço de sua carreira. O irreverente e provocativo cineasta dos anos noventa se entrega ao cinema comercial nesta história caótica, na qual nada funciona. Tracy Morgan é irritante, a trama é uma bagunça, as piadas causam vergonha, os lugares-comuns transbordam. Provavelmente o pior filme do ano.
Nota: 3.0

Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo (Prince of Persia – The Sands of Time) – EUA, 2010
De Mike Newell. Com Jake Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley e Alfred Molina.
Ao contrário do que se disse, o filme é divertido. Sim, a história é absurda e repleta de furos e o excesso de efeitos especiais (muitos deles toscos) incomoda. Mas há boas cenas de ação e a dinâmica entre os personagens funciona, garantindo um bom passatempo.
Nota: 6.0

Monday, November 29, 2010

Despedida

Em um dia como outro qualquer, Ruth estava sentada ao lado do velho marido em seu sofá bege desbotado e rasgado em diversos lugares. Assistiam, juntos, como tantas outras vezes, a um programa de auditório em uma televisão que possuíam há mais de quinze anos, aparelho para o qual a bengala do velho funcionava como controle remoto, bastando ele esticar o braço para trocar o canal.

Em um dia como outro qualquer, Ruth olhou de soslaio para o homem sentado à sua esquerda. Após décadas de cumplicidade e companheirismo, tinha a certeza de conhecê-lo como nem ele mesmo se conhecia. Ruth ainda via, além dos cabelos ralos e das rugas destacadas, o brilho nos olhos de quem encarava a vida com paixão e leveza, características que a encantaram quando era apenas uma garota.

Em um dia como outro qualquer, Ruth ergueu-se do sofá com dificuldades, sentindo em sua perna a dor que há muito a acompanhava. Percebeu o olhar do marido, questionando silenciosamente se ela precisava de ajuda. Ruth apenas fez um movimento com a mão agradecendo a preocupação do companheiro e, após algum esforço, conseguiu se firmar em pé no centro da sala.

Em um dia como outro qualquer, Ruth inclinou-se e beijou sem pressa a testa de seu velho marido. Não era mais o beijo apaixonado de adolescente, mas um gesto de gratidão por tudo o que ele a oferecera. “Está tudo bem, Ruth?”, perguntou ele. “Claro, meu velho. Só vou dar uma descansada”, ela respondeu, com a voz frágil de quem já disse ao mundo tudo o que tinha a dizer.

Em um dia como outro qualquer, Ruth caminhou vagarosamente em direção ao seu quarto. Observou a sua casa com um pequeno sorriso no rosto: a mesa de jantar onde dera tantas risadas, a estante dos livros que tanto a ensinaram, os porta-retratos com as fotos dos netos e bisnetos que haviam trazido novamente a magia da inocência à sua vida, iluminando seus derradeiros anos.

Em um dia como outro qualquer, Ruth entrou no quarto que há anos dividia com o homem que sabia de todos os seus segredos. Fechou a porta atrás de si tentando fazer o menor ruído possível. Sentou-se à beirada da cama e, com os pés, retirou os pequenos sapatos, posicionando-os ao lado do criado-mudo. Respirou fundo e, novamente enfrentando dificuldades, pôs-se em pé.

Em um dia como outro qualquer, Ruth caminhou em direção ao seu armário e abriu a porta de cor ocre. Escolheu um vestido vermelho que adorava, mas há anos não o retirava do guarda-roupas. Retirou por sobre a cabeça o outro vestido que usava, uma peça simples, verde-clara e com estampas de flores. Dobrou-o cuidadosamente e o guardou dentro do armário. Logo após, vestiu a peça vermelha, observando a si mesmo no espelho.

Em um dia como outro qualquer, Ruth tirou do armário um belíssimo sapato preto de salto alto. Calçou-os e perdeu o equilíbrio por instantes, desacostumada a eles, mas conseguiu se manter em pé. Cuidadosamente, caminhou em direção à cama e, novamente, sentou-se na beirada. Respirou fundo mais uma vez. Ofereceu um olhar repleto de ternura ao seu quarto, espaço no qual vivera grande parte de sua longa vida.

Em um dia como outro qualquer, Ruth olhou para a única foto sobre o criado-mudo. Nela, dois homens e duas mulheres sorriam abraçados. Ruth também sorriu, sozinha no quarto. Tentou lembrar-se da época em que aqueles quatro adultos eram crianças, das brincadeiras que fazia com eles, das lições que os ensinou, dos castigos que os infligiu. Não conseguiu lembrar de tudo, mas não se sentiu culpada. Ruth sabia que o tempo apagava certas memórias.

Em um dia como outro qualquer, Ruth verteu uma pequena e solitária lágrima. Sentiu orgulho das pessoas de caráter que seus filhos haviam se tornado. Agradeceu pela sorte de ter escolhido um marido que permaneceu sempre ao seu lado. E, acima de tudo, nada lamentou, tendo a certeza de que vivera exatamente a vida que poderia ter vivido.

Em um dia como outro qualquer, Ruth colocou seus óculos ao lado da foto dos filhos. Deitou-se sobre a cama, estendendo as pernas e posicionando as duas mãos sobre o peito. Ruth respirou profundamente por duas vezes e sorriu com graça. Olhava para o teto, enquanto a sua mente viajava pelo tempo.

Em um dia como outro qualquer, Ruth fechou os olhos pela última vez.

Era um dia como outro qualquer.

Tuesday, November 16, 2010

FIlmes de Outubro

Terror na Antártida (Whiteout) – Canadá/EUA/França, 2009
De Dominic Sena. Com Kate Beckinsale, Gabriel Macht, Tom Skerritt e Coumbus Short.
Por vezes, quando dá espaço às dificuldades provenientes do local, o filme dá mostras de que poderia ser interessante. Pena que o péssimo roteiro, previsível e esquemático, jogue por terra (ou gelo, no caso) qualquer potencial.
Nota: 5.0

Esquadrão Classe A (The A-Team) – EUA, 2010
De Joe Carnahan. Com Liam Neeson, Bradley Cooper, Jessica Biel, Patrick Wilson, Sharlto Copley e Quinton ‘Rampage’ Jackson.
Em nenhum instante o filme tenta ser sério e é exatamente aí que mora o seu charme. Divertido, exagerado e até tosco, principalmente no que se refere aos efeitos especiais. Entrega o que se propõe.
Nota: 6.0

À Procura de Eric (Looking for Eric) – Inglaterra/França/Itália, 2009
De Ken Loach. Com Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop e Gerard Kearns.
Até a metade, é um ótimo filme, com Loach montando mais um retrato realista (ainda que com toques de fantasia e humor) da classe operária britânica. Mas o cineasta parece não saber como encerrar a história, apostando em um terceiro ato forçado e irreal.
Nota: 6.0

Arca Russa (Russkyi Kovcheg) – Rússia/Alemanha, 2002
De Aleksander Sokurov. Com Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova e Leonid Mozgovoy.
Sem dúvida alguma, o plano-sequência de noventa minutos é uma realização monumental, que impressiona em seus quesitos técnicos. Por outro lado, trata-se de um filme cansativo e distante, que jamais envolve o espectador. Interessante, claro, mas apenas isso.
Nota: 6.0

Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?) – EUA, 1966
De Mike Nichols. Com Elizabeth Taylor, Elizabeth Taylor, George Segal e Sandy Dennis.
Cruel, intenso, dramático, inteligente. Excelentes diálogos, atuações memoráveis de Taylor e Burton, direção precisa. Uma interpretação nada agradável ou otimista sobre a natureza destrutiva dos relacionamentos e as desilusões provocadas pela vida. Grande, grande filme.
Nota: 9.0

As Diabólicas (Les Diaboliques) – França, 1955
De Henri-Georges Clouzot. Com Simone Signoret, Vera Clouzot, Paul Meurisse e Charles Vanel.
Uma verdadeira aula sobre o que é um suspense bem realizado, com um roteiro repleto de reviravoltas e personagens bem construídos. A direção de Clouzot é impecável, criando uma atmosfera angustiante que sufoca até os assustadores instantes finais. Brilhante.
Nota: 8.5

Tropa de Elite 2 – Brasil, 2010
De José Padilha. Com Wagner Moura, André Ramiro, Milhem Cortaz, Irandhir Santos, Tainá Muller e Seu Jorge.
Padilha justifica esta sequência ao não apostar apenas na repetição do que deu certo no original, mas fazendo a história evoluir. Porém, mais do que isso, é uma obra complexa em sua narrativa e executada com precisão, capaz de entreter e indignar. Wagner Moura, novamente, comprova ser o melhor ator da sua geração.
Nota: 9.0

Conquista Sangrenta (Flesh + Blood) – Espanha/EUA/Holanda, 1985
De Paul Verhoeven. Com Rutger Hauer, Jennifer Jason Leigh, Tom Burlinson e Jack Thompson.
O enredo é previsível e, por vezes, a artificialidade incomoda, mas Verhoeven demonstrava coragem em sua estreia nos EUA ao não deixar de lado o sexo, a violência e a selvageria da época que retrata. Um filme que tem mais a oferecer do que parece.
Nota: 7.0

Mother – A Busca pela Verdade (Madeo) – Coréia do Sul, 2009
De Joon-Ho Bong. Com Hye-Ja Kim, Bin Won e Ku Jin.
O cineasta demonstra novamente ser capaz de trazer originalidade a um filme de gênero, em uma narrativa consistente e muito bem pensada. É o terceiro ato, porém, que faz de Mother uma produção acima da média, levando à pergunta: “O que eu faria?”
Nota: 7.5

Rastros de Ódio (The Searchers) – EUA, 1956
De John Ford. Com John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond e Natalie Wood.
Em certos aspectos, o filme envelheceu mal, como na subtrama do casamento de Pawley. Por outro lado, segue uma das grandes obras do cinema norte-americano, com uma construção de personagem ambígua (principalmente para a época), pontuada por belíssimas imagens da câmera de Ford. Um grande filme, com justo valor histórico.
Nota: 8.0

Julie e Julia (Julie & Julia) – EUA, 2009
De Nora Ephron. Com Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina e Mary Lynn Rajskub.
Separadas, as duas histórias são bem comuns e até estereotipadas. A montagem paralela ainda consegue torná-las levemente mais interessantes, mas o que realmente torna o filme agradável são as interpretações de Amy Adams e, principalmente, Meryl Streep.
Nota: 6.0

A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria) – Inglaterra/Estados Unidos, 2009
De Jean-Marc Vallé. Com Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson, Jim Broadbent, Thomas Kretschmann e Mark Strong.
Mesmo que pareça, por vezes, apressado, o roteiro é bem feito a ponto de amarrar e compactar as histórias. Um filme agradável, belissimamente fotografado e, até certo ponto, instrutivo.
Nota: 7.0

Bravura Indômita (True Grit) – EUA, 1969
De Henry Hathaway. Com John Wayne, Glen Campbell, Kim Darby, Robert Duvall e Dennis Hopper.
Ainda que seja um de seus melhores papéis, o Oscar a Wayne parece um exagero. De qualquer forma, é um filme que entretém do início até o final, com personagens interessantes e bons momentos. A questão é: o que os Coen vão fazer na refilmagem?
Nota: 7.5

Violência Gratuita (Funny Games) – Áustria, 1997
De Michael Haneke. Com Susanne Lothar, Ulrich Mühe, Arno Frisch e Frank Giering.
De onde vem a nossa fascinação pela violência? Haneke apresenta a sua visão, representada no significativo plano da televisão repleta de respingos de sangue. Um filme tenso, complexo e ousado. Devastador em praticamente todos os sentidos.
Nota: 9.0

Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun) – EUA, 1951
De George Stevens. Com Montgomery Clif, Elizabeth Taylor, Shelley Winters e Anne Revere.
O “american dream” entrando em choque com a realidade. Estrelas no auge da forma, momentos de pura magia, romance maior que a vida. Uma das mais perfeitas definições de um clássico do cinema norte-americano.
Nota: 9.0

Num Céu Azul Escuro (Tmavomodry Svet) – República Tcheca/Inglaterra/Alemanha /Dinamarca/Itália, 2001
De Jan Sverák. Com Ondrej Vetchý, Krystof Hádek, Tara Fitzgerald e Charles Dance.
A boa recriação de época e as belas cenas aéreas contrastam com a história fraca, inverossímil e sem personagens marcantes. O final ainda traz certa dignidade à trama, mas nada que faça o filme sair do lugar-comum.
Nota: 6.0

Atividade Paranormal 2 (Paranormal Activity 2) – EUA, 2010
De Tod Williams. Com Sprague Grayden, Katie Featherston e Micah Sloat.
Está longe de ser um filme ruim: a tensão é bem construída e os sustos são realmente eficazes, nada gratuitos. Mas não deixa de ser uma sequência desnecessária, uma vez que nada apresenta de novo em relação à produção original.
Nota: 6.0

Um Louco Apaixonado (How to Lose Friends & Alienate People) – Inglaterra/2008
De Robert B. Weide. Com Simon Pegg, Gillian Anderson, Jeff Bridges, Kirsten Dunst, Megan Fox e Danny Huston.
A energia de Simon Pegg não é suficiente para superar o material com piadas requentadas e história absurda. Há, pelo menos, algumas alfinetadas na cultura das celebridades norte-americanas, mas falta ousadia para uma crítica mais incisiva
Nota: 5.0