Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Monday, May 15, 2006

Claustrofobia

Foi como se nem tivesse aberto os olhos. Sabia que eles não mais continuavam cerrados, mas permanecia sem enxergar. Seu corpo doía. Cada músculo parecia enfiar-lhe a ponta de uma adaga dentro da pele. Perto do pulso, a dor era diferente, mais como uma ardência, e ele apenas sentia quando tentava se mexer. Parecia que algo áspero havia prendido seus punhos por um bom tempo. Percebeu também que os movimentos estavam limitados. Os dois braços estendidos ao longo do corpo não tinham muita utilidade, pois não conseguia dobrá-los sem bater na parte de cima da caixa em que parecia estar preso. Passou a mão pelo material e sentiu que era feito de madeira crua, pouco trabalhada. O ar era úmido e, a cada vez que respirava, parecia que algo mais entrava por suas narinas. Uma substância caía em seu rosto e, com a língua, tentou alcançar para saber o que era. Esticou o órgão do paladar para a bochecha esquerda e sentiu algo molhado, inconsistente. Terra. Parecia terra molhada. Tentou se movimentar mais uma vez, mas não conseguiu. O espaço era exíguo. Mover-se mais do que alguns centímetros, para qualquer direção, era impossível. Sentiu algo escorrendo por sua testa, sem saber se era suor ou a mesma terra molhada de antes. O corpo estremecia de frio. Preso, sujo e no escuro, começou a se desesperar. Gritou duas vezes, com pouca força, pois a voz saiu entrecortada em meio aos soluços do choro angustiante que o assolou. Passou um tempo apenas deixando as lágrimas escorrerem até começar a se sacudir dentro da caixa onde se encontrava. Fez isso por longos segundos, perguntando para ninguém o motivo de estar ali. A boca aberta recebeu novos punhados de terra, que desceram diretamente por sua garganta. Tossiu sentindo os grãos úmidos na traquéia, sem poder se virar ou levar a mão à boca. Deu-se conta, por baixo de todo a angústia, de que estava com sede. Mais uma vez, tremeu todo o corpo com o frio. Queria pensar, queria entender o que fazia ali, mas não conseguia. O desespero tomava conta e pensava apenas na família. Será que o procuravam? Chorou. E chorou.

1 Comments:

Anonymous Pree said...

Churrasco?!
Ahh,tô sabendo viu!
bjo!

11:03 AM  

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