Reflexões de Nietzsche
Nunca é fácil acabar um relacionamento de quatro anos, mas Mauro estava bastante seguro. Pensava nisso há alguns meses e finalmente tomara a decisão definitiva.
- Apenas não dá mais – respondeu a um amigo, quando questionado sobre os motivos de tal atitude.
- Mas vocês sempre pareceram feitos um para o outro.
- Pois é. E o pior é que não tem motivo específico. Ela não me traiu, eu não me apaixonei por outra, ela não ronca nem rouba minhas cobertas na cama. Simplesmente não é mais a mesma coisa.
- E a Rosana? Como será que vai encarar? – indagava o amigo.
- Com certeza vai ficar mal. Sei que ela me ama e precisa de mim, mas não dá mais. Vai chorar no meu ombro e pedir para eu ficar, mas estou decidido – esclarecia Mauro.
- E vai fazer isso hoje mesmo?
- Sim, hoje à noite. Depois do expediente.
Mesmo com uma decisão dessa magnitude nas costas e o inevitável confronto emocional que o esperava logo adiante, Mauro desempenhou suas tarefas profissionais com dedicada precisão. Nada, em sua jornada de trabalho naquele dia, indicava estar prestes a encerrar uma relação que, um dia, significara tanto. Estava confiante e apenas lamentava o sofrimento pelo qual faria Rosana passar.
A caminho de casa, em seu carro, pensava na melhor maneira de iniciar a conversa. Apesar de não mais querer morar junto com Rosana, ainda gostava dela e, principalmente, respeitava-a. Quanto menos dor infligisse, melhor.
Mauro encontrou Rosana sentada no sofá da sala, lendo Cem Anos de Solidão e ouvindo jazz, com volume baixo. Ao perceber a presença dele, ela fechou o livro de García Márquez e se levantou, desligando o som. Não chegou perto de Mauro, passando longe da menção de um beijo de boas-vindas, atitude que, por sinal, ele retirbuiu.
- Oi, Mauro – disse Rosana, com certa indiferença na voz.
- Oi, Rô. Podemos conversar?
- Claro.
- Senta – falou Mauro, apontando para uma cadeira na mesa de jantar. Acomodou-se ao lado e prosseguiu: - É um assunto sério, Rô.
- Outro?
- Como outro?
- Também preciso conversar com você – falou Rosana, em tom sério.
Mauro foi surpreendido pela declaração dela. Qualquer que fosse o assunto de Rosana, certamente não era tão importante quanto o que ele tinha a dizer. Decidiu deixar ela falar primeiro.
- O que foi? Algum problema? – indagou, mais para que ela terminasse logo do que por interesse no tema.
- Sim – ela olhou para baixo e respirou fundo. Em seguida, encarou Mauro com olhos frios e sentenciou: - Estou deixando você, Mauro.
- Quê!? – espantou-se ele. – Como!? Quando!?
- Agora mesmo. Minhas coisas já estão todas ali – comentou Rosana, apontando para um conjunto de malas feitas parado ao lado da porta. Mauro ficou estarrecido por não ter notado aquilo antes.
- Mas... por quê!? – questionava ele, ainda abalado pela notícia. – Achei que estávamos bem.
- Ah, Mauro. Você sabe que isso não é verdade. Não estamos bem faz tempo.
- Mas podemos resolver! Em tudo dá-se um jeito! – exclamava Mauro, surpreso com sua própria reação.
- Não, Mauro, não agora. Não dessa vez. Só estou esperando o Emílio pra irmos – Rosana não exibia qualquer resquício de emoção na sua voz.
- Emílio!? Quem é Emílio!? – Mauro começava a se desesperar. – Por favor, Rô, me diga! Quem é Emílio!?
- Emílio é o cara quem eu tenho saído nos últimos meses. Vou morar com ele.
Mauro ficou atônito. Parecia em estado de choque. Olhos arregalados, boca escancarada e veias visíveis, prestes a estourar a pele. Tentou articular um último apelo ou reprimenda, mas a voz parecia ter refugiado-se em um abismo inalcançável. Permaneceu na mesma posição enquanto Rosana levantava da mesa.
Ela dirigiu-se à porta. Calmamente, serena, pôs a mão sobre o ombro de Mauro. Pela primeira vez na noite, sua voz exprimiu um pouco de doçura.
- Não há porque tornar isso mais difícil do que precisa ser. Adeus, Mauro.
Rosana juntou suas malas do chão e saiu, fechando a porta sem olhar para trás.
Mauro continuou sentado por uma quantidade de minutos que, tempos depois, quando lembrava do acontecido, jamais soube precisar. A mente era um turbilhão de imagens e lembranças e sensações. Ao contrário do que escreveram poetas ao longo dos anos, nada sentia no coração. Era mais para baixo que tomava-lhe algo estranho e incômodo, como se alguém revirasse seu estômago em busca de algo.
As lágrimas até então contidas vieram aos borbotões, acompanhadas de soluços que reverberaram por todo o cômodo. Esticou as mãos na direção da porta e disse, com a voz entrecortada pelo choro repleto de dor:
- Volta, Rô...
Mas ela não voltaria. Rosana partira para sempre, deixando-o solitário na companhia de seu orgulho ferido.
- Apenas não dá mais – respondeu a um amigo, quando questionado sobre os motivos de tal atitude.
- Mas vocês sempre pareceram feitos um para o outro.
- Pois é. E o pior é que não tem motivo específico. Ela não me traiu, eu não me apaixonei por outra, ela não ronca nem rouba minhas cobertas na cama. Simplesmente não é mais a mesma coisa.
- E a Rosana? Como será que vai encarar? – indagava o amigo.
- Com certeza vai ficar mal. Sei que ela me ama e precisa de mim, mas não dá mais. Vai chorar no meu ombro e pedir para eu ficar, mas estou decidido – esclarecia Mauro.
- E vai fazer isso hoje mesmo?
- Sim, hoje à noite. Depois do expediente.
Mesmo com uma decisão dessa magnitude nas costas e o inevitável confronto emocional que o esperava logo adiante, Mauro desempenhou suas tarefas profissionais com dedicada precisão. Nada, em sua jornada de trabalho naquele dia, indicava estar prestes a encerrar uma relação que, um dia, significara tanto. Estava confiante e apenas lamentava o sofrimento pelo qual faria Rosana passar.
A caminho de casa, em seu carro, pensava na melhor maneira de iniciar a conversa. Apesar de não mais querer morar junto com Rosana, ainda gostava dela e, principalmente, respeitava-a. Quanto menos dor infligisse, melhor.
Mauro encontrou Rosana sentada no sofá da sala, lendo Cem Anos de Solidão e ouvindo jazz, com volume baixo. Ao perceber a presença dele, ela fechou o livro de García Márquez e se levantou, desligando o som. Não chegou perto de Mauro, passando longe da menção de um beijo de boas-vindas, atitude que, por sinal, ele retirbuiu.
- Oi, Mauro – disse Rosana, com certa indiferença na voz.
- Oi, Rô. Podemos conversar?
- Claro.
- Senta – falou Mauro, apontando para uma cadeira na mesa de jantar. Acomodou-se ao lado e prosseguiu: - É um assunto sério, Rô.
- Outro?
- Como outro?
- Também preciso conversar com você – falou Rosana, em tom sério.
Mauro foi surpreendido pela declaração dela. Qualquer que fosse o assunto de Rosana, certamente não era tão importante quanto o que ele tinha a dizer. Decidiu deixar ela falar primeiro.
- O que foi? Algum problema? – indagou, mais para que ela terminasse logo do que por interesse no tema.
- Sim – ela olhou para baixo e respirou fundo. Em seguida, encarou Mauro com olhos frios e sentenciou: - Estou deixando você, Mauro.
- Quê!? – espantou-se ele. – Como!? Quando!?
- Agora mesmo. Minhas coisas já estão todas ali – comentou Rosana, apontando para um conjunto de malas feitas parado ao lado da porta. Mauro ficou estarrecido por não ter notado aquilo antes.
- Mas... por quê!? – questionava ele, ainda abalado pela notícia. – Achei que estávamos bem.
- Ah, Mauro. Você sabe que isso não é verdade. Não estamos bem faz tempo.
- Mas podemos resolver! Em tudo dá-se um jeito! – exclamava Mauro, surpreso com sua própria reação.
- Não, Mauro, não agora. Não dessa vez. Só estou esperando o Emílio pra irmos – Rosana não exibia qualquer resquício de emoção na sua voz.
- Emílio!? Quem é Emílio!? – Mauro começava a se desesperar. – Por favor, Rô, me diga! Quem é Emílio!?
- Emílio é o cara quem eu tenho saído nos últimos meses. Vou morar com ele.
Mauro ficou atônito. Parecia em estado de choque. Olhos arregalados, boca escancarada e veias visíveis, prestes a estourar a pele. Tentou articular um último apelo ou reprimenda, mas a voz parecia ter refugiado-se em um abismo inalcançável. Permaneceu na mesma posição enquanto Rosana levantava da mesa.
Ela dirigiu-se à porta. Calmamente, serena, pôs a mão sobre o ombro de Mauro. Pela primeira vez na noite, sua voz exprimiu um pouco de doçura.
- Não há porque tornar isso mais difícil do que precisa ser. Adeus, Mauro.
Rosana juntou suas malas do chão e saiu, fechando a porta sem olhar para trás.
Mauro continuou sentado por uma quantidade de minutos que, tempos depois, quando lembrava do acontecido, jamais soube precisar. A mente era um turbilhão de imagens e lembranças e sensações. Ao contrário do que escreveram poetas ao longo dos anos, nada sentia no coração. Era mais para baixo que tomava-lhe algo estranho e incômodo, como se alguém revirasse seu estômago em busca de algo.
As lágrimas até então contidas vieram aos borbotões, acompanhadas de soluços que reverberaram por todo o cômodo. Esticou as mãos na direção da porta e disse, com a voz entrecortada pelo choro repleto de dor:
- Volta, Rô...
Mas ela não voltaria. Rosana partira para sempre, deixando-o solitário na companhia de seu orgulho ferido.
“Aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, instalar-se e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável. (...) O amor é o mais nobre desejo de posse.”
Friedrich Nietzsche
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