Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Wednesday, October 01, 2008

Gratidão criminosa.

Normalmente, boa parte das pessoas que tem o hábito de ler (sejam especialistas ou não) costumam criticar aquelas obras mais formulaicas, direcionadas a um público mais abrangente. Este é, provavelmente, o argumento principal dos detratores de J.K. Rowling e Dan Brown, por exemplo. Segundo eles, são obras sem profundidade psicológica, personagens rasos e tramas com fórmulas batidas. Sem contar, claro, a própria precariedade do texto.

Prefiro ver por outro lado. Pode-se concordar com estes argumentos para os leitores mais vorazes, que absorvem grandes clássicos e obras eternas. Porém, livros mais populares são extremamente úteis e valorosos, pelo simples motivo de despertarem em novatos o prazer da leitura. Quem começa lendo Harry Potter, certamente terá vontade de conhecer outras obras. Em breve, depois de Rowling, estará lendo Dostoiévski e Saramago.

E afirmo isso por experiência própria. Sou fanático por literatura e tenho a absoluta certeza de que essa minha paixão teve início ainda na época de colégio, quando eu lia a saudosa Coleção Vaga-Lume e simplesmente engolia os romances de Agatha Christie. Li muita coisa da Rainha do Crime. Mesmo. Na minha adolescência, foi lançada uma coleção que vendia os livros de Christie a oito reais. Toda semana, eu comprava um. Toda semana, eu lia um, já ansiando pelo próximo.

Naquela época, a autora era a minha favorita. E foi por muito tempo, até eu adquirir um conhecimento maior de literatura e um senso crítico mais apurado. Desde então, outros assumiram o posto, porém mantive o carinho por Christie. Por muitos anos, fiquei sem ler absolutamente qualquer coisa dela. Aventurava-me por outros gênios e caminhos. No entanto, a britânica sempre teve um lugar especial no meu coração por ter despertado a chama dessa paixão em mim.

Foi, portanto, com interesse e nostalgia que comecei a ler A Noite das Bruxas. Não planejava voltar às páginas de Christie, até porque a fila de obras que tenho para ler continua aumentando no meu quarto, mas o livro praticamente caiu no meu colo. Quando comecei a ler, voltava no tempo. Voltava à adolescência. Reencontrei-me com o inigualável Hercule Poirot, revivi os assassinatos sem explicação, fui reapresentado aos personagens capciosos e, claro, vibrei novamente com os finais que davam sentido a tudo – ou não.

A Noite das Bruxas está longe de figurar entre as melhores obras da Rainha do Crime. Isso é fato. Mas o livro conta com todos os ingredientes que transformaram-na em um sucesso. Lendo, notava claramente algumas das falhas do texto de Christie, o desenvolvimento claudicante da trama, o excesso de personagens, a superficialidade destes e a estrutura mais do que óbvia da narrativa.

Reconheço os erros – maiores ou menores em cada uma de suas obras. E daí? Agatha continua para mim como uma das maiores. Mais do que uma autora, é uma amiga que me abriu as portas para um novo mundo de infinitas possibilidades. Posso demorar anos para ler uma nova obra sua, e provavelmente demorarei. Mas, bons ou ruins, os livros dela são essenciais. Fazem parte da minha vida. E, por isso, serei eternamente grato à grande Rainha do Crime.

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