Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Sunday, February 12, 2006

Cúmulo

Já era madrugada quando decidi me suicidar. Não vou entrar especificamente nos motivos, porque senão esta história assumiria outro foco, o das desilusões e problemas da minha vida. Não é esse o meu objetivo com esta narrativa, então basta dizer que passei por tanta coisa nos últimos meses que aquela noite de calor infernal foi a gota d’água.
Devia ser umas quatro e meia da manhã. Simplesmente me dei conta de que não queria mais permanecer no mundo dos vivos. Não queria mais ter conta em banco, não queria mais ser identificado com um número em uma carteira, não queria mais ter que limpar a merda do cachorro que a Leila me deixou.
Meu primeiro pensamento foi o de dar um tiro na minha cabeça. Rápido, limpo, sem dor. Mas aí pensei melhor. Não seria tão limpo assim. Espalharia miolos e sangue por toda a casa. Não tinha por que fazer isso. Coitados dos responsáveis pela limpeza depois do acontecido. Se eu ia me matar, seria melhor pensar em um jeito que prejudicasse apenas a mim, e não a outros. O que eu menos queria, uma vez que já estava com a auto-estima lá embaixo, era que um grupo de faxineiros me odiasse depois de morto.
Então tiro na cabeça estava descartado. Quem sabe no céu da boca? Não, mas também daria na mesma sujeira. Poderia disparar diretamente no meu coração. Menos sangue e muito mais limpo. Essa era uma boa hipótese. Mas lembrei que eu era um contador. Nunca gostei de biologia e nada sabia de medicina. Tinha uma leve desconfiança de onde ficava o coração, mas não podia afirmar com certeza. E não queria dar um tiro em mim mesmo só pra furar um pulmão.
Descartei o revólver. Fiz bem, porque depois fui lembrar que nem possuía um. Tinha que seguir pra outra opção. A próxima idéia foi cortar os pulsos. Mas, além de sujar tudo de novo, caindo mais uma vez no mesmo problema de obrigar as faxineiras a terem que limpar tudo, eu não podia ver sangue. Se fosse um tiro, tudo bem, morreria na hora. Não veria hemoglobina nenhuma. Só que cortar os pulsos era diferente. Ficaria agonizando por não sei quanto tempo vendo meu próprio sangue escapar do meu corpo. Impossível.
Tive, então, um estalo. Morrer em alto estilo. Subir no alto do meu prédio, atrair uma multidão, aparecer na TV. Genial. Morrer como uma celebridade. Pelo menos na morte, ser alguma coisa na vida. Estava exultante com a idéia. Passei correndo pela porta e me encontrei no jardim. Algo errado. Foi aí que lembrei que não morava em apartamento de um prédio. Morava em uma casa de um andar. Não havia como saltar para a morte do meu telhado, a um metro de altura. No máximo, torceria um tornozelo e não estava com a menor vontade de ir trabalhar mancando segunda-feira.
Ok, mais uma opção jogada fora. A próxima eram os remédios. Corri para o armário onde os guardava, na cozinha. Abri e me arrependi de não ser hipocondríaco. O único medicamento que eu tinha era um vidro de Novalgina. No final. Se aquela quantidade de remédio tirasse a vida de alguém, os donos da empresa que fabricam a Novalgina já estariam presos há muito tempo.
Entrei no carro e fui até a farmácia mais próxima da minha casa. Iria encher os bolsos de remédio e caso o atendente perguntasse alguma coisa, diria que era dono de um hospital. Mas a farmácia estava fechada. Mesmo com a placa de 24h na frente, estava fechada. Voltei ao carro para procurar outra loja. Merda de cidade pequena. Circulei por todas as ruas e nenhuma farmácia aberta. O máximo que encontrei foi um velho com insônia caminhando na rua com um remédio na mão. Pensei em seguir ele até em casa e roubar seus remédios. Velhos normalmente são cheios de doença. Mas desisti dessa idéia. Voltei pra casa desiludido.
Estavam acabando minhas idéias. De que outra forma eu poderia me suicidar? Enforcado! Claro, como não tinha pensado nisso? Saí pela casa procurando uma corda. Revirei caixas de coisas inúteis, mas tudo o que encontrei foi uma linha de costura. Mesmo magro como eu era, alguma coisa me dizia que aquele fiozinho não iria sustentar meu peso.
Lembrei então de uma corda de pular que meu sobrinho deixara lá em casa. Procurei no armário e ela realmente estava lá. Fiquei muito feliz. Finalmente poderia morrer. Peguei a corda e comecei a dar um nó. Foi quando me dei conta que não sabia fazer uma forca. Aquele nó que sufoca a pessoa quando ela fica sem apoio nos pés, eu não tinha a menor idéia de como fazer. Pensei em procurar na Internet (a gente acha de tudo lá, até dicas pra morrer), mas estava devendo para o Terra e não tinha como acessar.
Segurei a corda com a mão direita e joguei longe. O desânimo era total. Realmente não merecia viver, só que eu não conseguia me matar. Era um João-ninguém. João! João e Maria. A bruxa no fogão. Grande idéia. Iria colocar minha cabeça no fogão a gás. Em um instante estava na cozinha, ligando o fogão. Deitei minha cabeça no forno. Estava ali há pelo menos uns quinze minutos quando percebi que nada acontecia. Também, como poderia acontecer? Eu não comprava gás há pelo menos um mês.
Impossível descrever o quanto eu estava decepcionado comigo mesmo. Tinha sido um perdedor durante toda a minha vida, mas acreditava, pelo menos, que conseguiria me matar. Não, claro que não. Eu conseguia ser um fracassado até na hora do suicídio. Desisti. Abri uma cerveja, sentei no sofá e fui assistir ao Big Brother no pay-per-view.

1 Comments:

Anonymous Gabriel Silveira said...

Piedade, senhor escritor. Ponha uma pedra para este Sampedro tropeçar e se ir. Muito bom! Abraço!

11:19 PM  

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