Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Tuesday, November 06, 2007

Para fora da bolha.

Uma das primeiras coisas que a gente aprende é que a vida não é fácil. Saímos da completa despreocupação da infância e temos que encarar um mundo que, muitas vezes, parece não nos querer. Começam a surgir as decepções, as responsabilidades, a luta pelo sustento. As coisas param de cair do céu e começamos a aprender que existe algo que faz tudo funcionar e agora é chegada a nossa vez de agir. É inevitável. Não adianta fugir. A não ser que você dê uma de James Dean e caia fora daqui ainda jovem, vai descobrir que o mundo não é feito só de flores.

Digo isso porque, alguns dias atrás, minha mãe disse algo que me fez pensar. Falávamos sobre Tropa de Elite quando ela afirmou veementemente que não iria assistir ao filme. O motivo? Diz ela que está cansada de ver violência, corrupção e todas essas coisas. Completou ainda com a colocação de que não lê mais jornal ou assiste Fátima Bonner e William Bernardes pelo mesmo motivo. Quer distância de todas as coisas ruins que a mídia mostra.

De certa forma, não a culpo. Este é o sonho de todos. Ninguém quer viver em um mundo dominado pela barbárie e pela intolerância, onde é possível roubar sem ser punido simplesmente por estar vestindo um terno de milhares de reais. Eu gostaria que escândalos de corrupção e mortes por bala perdida não aparecessem na TV nas poucas horas de descanso que tenho. Adoraria poder abrir o jornal e ler sobre a felicidade de uma criança ao tomar banho de chuva com os irmãos.

Mas, infelizmente, o mundo em que estamos não é assim. Ou, pelo menos, não está assim no momento. Mães perdem seus filhos por motivos idiotas. Ética tornou-se qualidade, quando deveria ser requisito básico de alguém. Crianças morrem de fome enquanto outros aumentam seus próprios salários. O desrespeito – pelas necessidades, pelos mais velhos, pelos mais novos, pelos sentimentos, pelo ser humano – impera. Vivemos em um mundo cheio de problemas. E virar a cara para isto não é a solução.

Na verdade, não sei qual é a solução. Acho que ninguém sabe ou, pelo menos, ainda não a descobriu. Mas tenho certeza de que ela só virá se estivermos consciente de tudo o que acontece. A gente precisa ver e assistir sobre as mortes, sobre as drogas, sobre a corrupção. Para não esquecer. É fácil criar uma bolha e se mandar junto com Alice para um ilusório país das maravilhas. Qualquer um consegue. Porém, de que adianta? Cedo ou tarde, o mundo à volta vai nos alcançar e é melhor que estejamos preparados.

É por isto que precisamos estar sempre sendo lembrados. A cada minuto, a cada hora, todos os dias. Saber que existe muito podre por aí, muito mais do que gostaríamos. Assim, talvez, a gente possa fazer alguma coisa. Por menor que seja. Pode ser devolvendo ao atendente aquele troco que ele deu a mais. Pode ser levantando a bunda do ônibus para dar lugar a um idoso. Pode parecer pouca coisa, mas a soma de atitudes pequenas faz muita diferença.

De nada ajuda colocar uma venda nos olhos e não querer enxergar o cancro da sociedade. A consciência é o primeiro passo para a mudança. Dela, vem a reflexão. Da reflexão surgem as idéias e, destas, a atitude. Eu não quero mais ver notícias sobre mortes. No entanto, preciso. Sei que existem coisas belas no mundo. Ainda tenho a capacidade de me extasiar com uma bela risada e de encher os olhos com folhas voando sem rumo. Mas não vivemos apenas com isso. E quem quiser pensar assim, quem quiser fechar os olhos, não vai estar somente enganando a si mesmo. Estará enganando a todos nós.

2 Comments:

Blogger Fala garoto, fala garota. said...

Cansados? Todos estamos. A opção de comprar ou não o DVD pirata, assistir na locadora ou ir ao cinema é pessoal. Ontem tinha promoção no Cinemark - Cinema Brasileiro a R$2. Adivinha quais salas estavam lotadas? Tropa de Elite. Que brasileiro não sente prazer em assistir uma obra que enaltece o fim da corrupção? Particularmente, eu nem sei o antônimo da palavra corrupção... Que vergonha.
Beijo, ótimos textos!
Andressa

12:56 PM  
Blogger Paula Salomão said...

Bem, na real, penso mais ou menos assim também. Mas acredito sinceramente que é possível fazer mais do que dar lugar no ônibus ou devolver o troco descuidado.
Para isso, me engajo em trabalho voluntário. Mas é trabalho sério, não para inglês ver. Se te pilhar, me fala!
Beijo

5:58 PM  

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