Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Tuesday, February 14, 2006

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN


O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (BROKEBACK MOUNTAIN) ***1/2
De Ang Lee. Com Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway e Randy Quaid.


11/02/06 – Silvio Pilau

Depois de arrecadar troféus em quase todas as premiações ao redor do mundo, o “filme dos cowboys gays” finalmente chegou ao Brasil. E, apesar de suas muitas qualidades, é inevitável a decepção com o mais recente trabalho do cineasta chinês Ang Lee, especialmente se for levada em conta a reputação construída por O Segredo de Brokeback Mountain até agora.
Escrito por Larry McMurty e Diana Ossana a partir de um conto de Annie Proulx, a obra tem início em 1963, quando dois vaqueiros assumem um trabalho para cuidar de ovelhas em uma montanha. Isolados, pouco a pouco eles começam a se aproximar, iniciando uma relação homossexual. Com receio de assumirem seus sentimentos, Ennis Del Mar e Jack Twist separam-se, mas não deixam de se encontrar regularmente ao longo de quase vinte anos. A negação do que sentem e a mentira que sustentam irá repercutir profundamente na vida de ambos.
O Segredo de Brokeback Mountain traz, sem dúvida, uma abordagem original. Colocar dois cowboys, ícones comumente percebidos como símbolos de masculinidade, como amantes é algo inédito na História do Cinema. É uma pena que, após assisti-la, todas as louvações que a obra já conquistou pareçam ter sido oferecidos mais pela coragem do tema abordado do que por suas qualidades narrativas.
Ainda assim, elas existem – e em boa quantidade. Ang Lee demonstra novamente alta sensibilidade e delicadeza ao contar a história, evitando que a relação entre Jack e Ennis se torne repulsiva para a platéia. A aproximação dos personagens e o amor que conseqüentemente cresce são extremamente convincentes, fazendo com que o espectador acabe percebendo a trama como uma história de amor impossível, e não como uma história de amor gay.
A grande força de O Segredo de Brokeback Mountain está na impecável construção dos personagens. Ennis Del Mar é um homem, em primeiro lugar, que se surpreende com o forte sentimento que tem para com Jack. Após a surpresa inicial, Ennis passa toda a sua vida buscando entender o que se passa, com medo de assumir a paixão. Grande parte disso deve-se a um acontecimento em sua infância, quando seu pai mostrara a ele o que acontecera com um homossexual na região onde morava. O receio de que algo semelhante se passe com ele resulta em uma falta de coragem consigo mesmo, mantendo preso um sentimento que vai seguir por sua vida, prejudicando todos os relacionamentos futuros.
Vivido com insuspeitada profundidade por Heath Ledger, o personagem se torna o centro em torno do qual esta trágica história se sustenta. O ator interpreta Ennis como um homem taciturno, que parece estar sempre com medo do que existe à sua volta. O segredo que o consume termina por liquidar com sua vida, tornando-o cada vez mais voltado para si mesmo. Ledger captura e expressa tudo isso com precisão cirúrgica, como se pode perceber na maneira de falar do personagem: sempre em tom baixo, mais para si mesmo do que para os outros.
Em contrapartida, Jack Twist sente-se mais à vontade com o sentimento que sente pelo parceiro. O seu maior problema não é o receio em assumir ou mesmo o conflito por se sentir atraído por um homem, mas sim o fato de que a pessoa amada recusa-se a assumir este amor. A relação, da mesma forma, acaba trazendo conseqüências na vida de Jack, mas elas são de naturezas diferentes daquelas que afligem Ennis, especialmente por tratar o caso de forma mais "aberta".
Quem assume o papel de Jack é o sempre interessante Jake Gyllenhaal, que constrói aqui mais um personagem interessante à sua já valiosa galeria de belos trabalhos. Seu Jack Twist delineia-se com claros traços de bissexualismo, sem jamais ceder à caricatura ou estereótipos. Gyllenhaal convence o espectador dos sentimentos do personagem apenas com olhares, revelando mais uma vez que é um dos grandes atores surgidos nos Estados Unidos nos últimos anos.
O talento de Ang Lee para contar histórias com sensibilidade se revela mais uma vez em O Segredo de Brokeback Mountain. Sem jamais apelar para clichês ou momentos melodramáticos, Lee triunfa ao focar a narrativa na inépcia dos personagens em seguirem com suas vidas, resultado da dificuldade em terem que manter às escondidas um amor daqueles. O diretor explora as impressionantes imagens e a bela trilha sonora para dar um tom poético à obra, realçando ainda mais a tragédia nas quais os personagens vêem-se envolvidos.
O Segredo de Brokeback Moutain, no entanto, não é constituído apenas de acertos. O filme se arrasta em diversos momentos, com a história parecendo andar em círculos. Isso deve-se também às subtramas inseridas na narrativa, onde grande parte não é desenvolvida satisfatoriamente. A relação entre Jack e seu sogro é um exemplo, soando gratuita no contexto do filme.
Da mesma forma, a personagem de Alma, interpretada com grande alcance por Michelle Williams, poderia render muito mais. O conflito vivido por sua personagem é pouco explorado, inclusive deixando o espectador se perguntando quanto ao final dado a ela pelos roteiristas. A posição dos pais de Jack também merecia ter recebido mais atenção. Eles possuem uma rápida - e marcante - aparição, mas suas atitudes e diálogos deixam muitas dúvidas no que tange à relação com o filho.
É de lamentar também a pouca preocupação dos cineastas quanto à passagem de tempo em O Segredo de Brokeback Mountain. O filme transcorre em um período de aproximadamente vinte anos e a única forma de mostrar isso fisicamente nos personagens é colocar um bigode em Jake Gyllenhaal. Como resultado, existem diversos momentos nos quais o espectador percebe que está assistindo apenas um filme (algo desastroso para qualquer produção), como quando Ennis está no carro com sua filha adolescente. A impressão é de que há apenas alguns anos de diferença entre os dois atores, e quando ela o chama de pai, não há como evitar uma certa estranheza.
No final, O Segredo de Brokeback Mountain é um belo romance. Nada mais do que isso. Uma história de amor impossível aos moldes de Romeu e Julieta ou As Pontes de Madison, contada por um cineasta talentoso, mas que jamais alcança grandes alturas. Calmo, sem pressa e sensível, O Segredo de Brokeback Mountain oferece qualidades suficientes para ser colocado acima da média. No entanto, seu grande diferencial está mesmo no tema abordade. E é uma pena pensar que é este fator, e não suas qualidades cinematográficas, o responsável por ser eleito o melhor filme do ano em diversas premiações.

5 Comments:

Blogger R. Rospy van Spinelli said...

Bah, admite de uma vez que o filme é uma bomba!
Não tem história, não tem bons diálogos, é tudo completamente gratuito, as tramas pararelas são terríveis e subexploradas... a única coisa que sobra é a ótima fotografia.
Se não fosse a 'polêmica gay', esse filme iria direto para as prateleiras das videolocadoras sem sequer ser notado...

10:14 AM  
Anonymous Anonymous said...

Tu gostou dessa merda?
Foi ver no Guion agarradinho com algum 'amiguinho'? Argh.

6:21 AM  
Blogger jesse said...

nunca assisti o filme. mas o seu comentário me estimulou a vê-lo.

1:52 PM  
Anonymous Anonymous said...

excelente comentário.

1:53 PM  
Anonymous Anonymous said...

acabei de ver o filme só por curiosidade mesmo e depois fui buscar na net mais informações e acabei nesse blog e realmente tenho que dizer o filme é otimo perfeito uma historia de amor cativante a todos sejam eles homo ou heterossexuais e tambem é bem notavel a falha quanto o envelhecimento dos personagens mas fazer oq nem tudo é perfeito? :)
^^

9:10 PM  

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