Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Saturday, April 01, 2006

Menos Um

Nunca tinham orado antes das refeições, mas a troca de olhares foi o sinal de que aquilo precisava ser feito. Deram-se as mãos e rezaram Pai Nosso e Ave Maria, duas vezes cada um, sobre a mesa já posta. Longe estava de poder ser chamada de farta, embora estivesse bem provida. Pena que a fome não chegara aos quatro integrantes da família que, ali reunida, não ocupava todos os lugares da mesa. Uma das cadeiras estava vaga e inevitável era voltar o olhar em direção a ela. Involuntariamente, enquanto as mãos lentamente levavam a refeição às bocas e o mastigar do alimento era o único inimigo do silêncio, a cadeira vazia tornava-se o destino de olhares furtivos. Fato é que nenhum dos quatro comensais, que, como já foi dito, constituíam uma família, queria mostrar ao outro que a cadeira atraía seus olhares. Por isso o olhar furtivo que já comentei. Rápido, como se fosse proibido. Mas como poderia ser de outro jeito? Quando a gente troca um móvel de lugar, já é difícil não observar o espaço vago por ele deixado. Imaginem, então, como é uma mesa de refeições ocupada em sua totalidade durante treze anos subitamente encontrando-se incompleta. Menos um prato, menos um copo, menos dois talheres. Menos uma pessoa. A mesa de jantar, que durante anos era o único lugar em que os cinco conseguiam se reunir como uma verdadeira família, sentia a falta do garoto que ocupava aquele lugar. Nenhum imaginava que seria tão difícil este momento. Não era a primeira vez que se alimentavam desde o acidente que tirou a vida do filho e irmão. Era, porém, a primeira vez que sentavam à mesa novamente. As mãos realizavam gestos autômatos, como se comer e passar aquele curto período de tempo ao lado de quem se ama fosse uma obrigação. Verdade que cada um reagiu ao acidente de forma diferente, mas todos sofreram o impacto e sabiam que o vazio da cadeira, de certa forma, representava o vazio sentido dentro de todos. O corpo humano age de maneiras estranhas, isso se sabe com certeza. No caso de nossos quatro personagens, a forma que o interior deles encontrou para superar o vazio foi preenchê-lo com outras coisas. Preenchê-lo com angústia, com dor, com sofrimento. Preenchê-lo com lágrimas. Especialmente com lágrimas. Lágrimas que a família já exibira em grandes quantidades nos últimos dias, mas que pareciam intermináveis. No entanto, os quatro seguravam elas, sabendo que a hora do almoço não era o melhor momento para chorar. Eram os quatro, em silêncio, comendo lentamente, sem olhar uns para os outros. Mas o olhar ia para a cadeira vazia com mais freqüência que eles pretendiam e, a cada vez que isto acontecia, a energia do corpo inteiro corria diretamente para os olhos, enchendo-os daquele líquido mágico e purificador conhecido como lágrima. O espaço vazio da cadeira parecia oprimir o peito de cada, impedindo-os de respirar e, como se pode imaginar, engolir o restante da refeição. Uma atitude precisava ser tomada e, como era de se esperar de um verdadeiro chefe de família, o pai levantou-se, segurou firmemente a cadeira vazia e levou-a até o jardim. Retornou à mesa. Ninguém comentou nada, mas dirigiram a ele olhares de aprovação. Baixaram a cabeça novamente e voltaram às tentativas de se alimentar. Pouco depois, perceberam que a cadeira não passava de um objeto. As lágrimas voltaram a verter.

1 Comments:

Anonymous Silveira said...

Menos um ou menos cinco?

5:48 AM  

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