Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Thursday, May 14, 2009

STAR TREK


STAR TREK
De J.J. Abrams. Com Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Simon Pegg, Karl Urban, Bruce Greenwood, Winona Ryder, Jennifer Morrison, Anton Yelchin e Leonard Nimoy.


J.J. Abrams é um cara corajoso. Somente alguém com muita ousadia – ou uma certa tendência ao masoquismo – aceitaria reformular completamente uma das séries mais cultuadas e veneradas de todos os tempos. Criada há mais de 40 anos por Gene Roddenberry, Jornada nas Estrelas solidificou-se, com uma dezena de filmes e séries de TV, como um dos grandes ícones da cultura pop, fazendo com que personagens como Kirk e Spock adentrassem no imaginário popular. Até mesmo quem não nasceu naquela época já ouviu falar do oficial de orelhas pontudas ou da nave Enterprise.

Mesmo com todos os milhões de seguidores, Jornadas nas Estrelas enfrentava, há anos, um declínio de popularidade, permanecendo viva graças à memória dos fãs que acompanharam as aventuras da tripulação original (antes do Picard de Patrick Stewart assumir). Assim, nada mais óbvio para o estúdio do que imaginar uma completa reinvenção da série, buscando atingir um novo público e aproveitando para fisgar os nostálgicos trekkers que fariam de tudo por ver a equipe mais uma vez nas telonas. Eis que chegamos, finalmente, ao Star Trek de J.J. Abrams.

Escrito por Roberto Orci e Alex Kurtzman (responsáveis pela idiotice conhecida como Transformers – O FilmeStar Trek mostra como a tripulação original acabou se juntando na Enterprise. James Kirk é um jovem impetuoso e rebelde, que decide partir para um treinamento na Federação. Enquanto isso, Spock é um brilhante oficial que, obviamente, tem suas desavenças com Kirk. Quando uma nave pede socorro, ambos acabam se unindo na nave Entreprise, junto ao resto da equipe, para combater o Capitão Nero, um romulano que busca vingança pela destruição do seu planeta, ameaçando acabar com a Terra.

Pois a notícia é boa: Star Trek é um filme repleto de qualidades, uma produção que certamente agradará tanto os fãs quanto os iniciantes no universo da Entrerprise. J.J. Abrams não tem a menor ambição de construir algo mais do que um típico filme-pipoca, que apenas entretém por duas horas, mas o faz com extrema eficiência. Abrams é um cineasta que sabe como capturar o público e oferecer exatamente que ele quer, sem menosprezá-lo – como pode ser percebido na série Lost e em Missão Impossível 3 –, o que acontece novamente aqui. Star Trek é um filme divertido, que equilibra bem enredo e personagens com cenas de ação empolgantes e efeitos especiais nada menos que impecáveis.

O primeiro aspecto a ser destacado é a reverência de Abrams, Orci e Kurtzman ao material original. São diversas referências à série clássica, algumas delas que até iniciados irão perceber, como a presença de Leonard Nimoy e a narração final sobre ir “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. No entanto, os roteiristas e o cineasta não se limitam às amarras e atualizam a história e personagens o tanto quanto necessário. Modificam, não desrespeitam. Ainda que as características básicas das personalidades se mantenham, Orci e Kurtzman acrescentam novas camadas e criam uma trama ágil, que exige atenção para ser compreendida – quem piscar o olho pode perder o fio da meada sobre às viagens no tempo. Quem quiser, pode até encontrar homenagens a Star Wars, como o planeta de gelo e a briga na perfuradora, que remetem ao planeta Hoth e à cena de ação sobre o poço do Garlacc no universo de George Lucas).

No entanto, ainda que o enredo funcione em aspectos gerais, o roteiro peca em diversos pontos, principalmente ao acelerar alguns momentos que mereceriam maior cuidado. Por exemplo, nada é dito sobre o que fez Kirk mudar de ideia e decidir embarcar com os novos recrutas após recusar o convite do comandante Pike. Além disso, o relacionamento entre Spock e Uhura se limita a duas cenas, a primeira delas ocorrendo praticamente pela metade do filme, o que causa estranhamento no espectador. São alguns pequenos detalhes que poderiam – e deveriam – ser melhor trabalhados, mas que acabam sendo esquecidos, como se fosse prejudicial ao ritmo exigido de uma produção comercial norte-americana.

E ritmo não falta a Star Trek. Desde a ótima cena de abertura e das apresentações de Spock em Vulcano e de Kirk ao som dos Beastie Boys, Abrams pega o espectador pelo pulso e somente larga quando os créditos finais começam a aparecer. O cineasta constrói uma cena empolgante atrás da outra, não somente graças aos efeitos especiais, mas devido a um trabalho de direção hábil e uma montagem repleta de energia. Star Trek jamais deixa a bola cair, ainda que Abrams ocasionalmente apele para alguns recursos desnecessários, como o excesso de planos com a câmera de lado ou balançando. Ainda assim, o filme conta com diversas seqüências de ação irrepreensíveis, como a já citada do início, aquela sobre a perfuradora e o final envolvendo o buraco negro.

Mas o que realmente faz Star Trek funcionar não é o espetáculo visual, e sim os personagens. Era fundamental para o reinício da franquia que Kirk, Spock e cia. conseguissem transmitir carisma e estabelecer uma dinâmica eficiente, o que realmente acontece. Claro que não se exige, agora, uma química igual a que os atores originais possuíam, mas a nova produção inicia de maneira eficaz esse relacionamento que certamente será melhor desenvolvido em futuras produções. Star Trek é a história do nascimento de uma amizade e do surgimento dos laços entre uma equipe, e Abrams jamais perde o esse foco, mesmo em meio às feéricas explosões no espaço.

Claro que os méritos dessa conquista também se devem – e muito – ao elenco. Chris Pine surpreende no papel de Kirk ao carregar o filme com naturalidade, exibindo uma bem-vinda comicidade e retratando o espírito rebelde e contestador do personagem sem se tornar irritante. Ao mesmo tempo, Zachary Quinto demonstra talento ao conseguir transmitir a natureza conflituosa de Spock, preso entre a razão e a emoção. Mas é quando os dois dividem a tela que Star Trek realmente demonstra todo o seu potencial. A química entre Pine e Quinto é ótima e todos os momentos entre os personagens – sejam os cômicos, os dramáticos ou os de ação – convencem sem maiores problemas e, acima de tudo, transmitem a sensação de que algo realmente está sendo erigido ali.

Já em relação ao restante do elenco, o resultado é mais irregular. Se Zoe Saldana encarna Uhura com naturalidade e sensualidade, Simon Pegg exibe mais uma vez seu timing cômico invejável como Scotty e Leonard Nimoy surge completamente dono de seu personagem (em não apenas uma homenagem, mas um papel fundamental à trama), Karl Urban e Anton Yelchin parecem exagerados como McCoy e Checov. Enquanto isso, Winona Ryder e Jennifer Morrison (do seriado House) são completamente subutilizadas, assim como Eric Bana no papel de Nero. Aliás, se há um grande problema em Star Trek é esse: o vilão jamais parece à altura da tripulação da Enterprise.

Contando ainda com uma ótima trilha sonora de Michael Giacchino e bons momentos de humor, Star Trek é um belo ponto de partida para uma franquia que tem tudo para voltar a conquistar admiradores. O filme não tem a ambição intelectual da série original, mas também não se propõe a isso. É feito com o objetivo de divertir e, visto por essa ótica, é muito bem sucedido. E o melhor: deixa o espectador querendo acompanhar novas aventuras de Kirk, Spock e de toda a tripulação da Enterprise. Ponto para Abrams e toda a sua coragem.

Nota: 7.0

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Monday, March 16, 2009

AS RUÍNAS


AS RUÍNAS (THE RUINS)
De Carter Smith. Com Jena Malone, Jonathan Tucker, Shawn Ashmore, Laura Ramsey e Joe Anderson.

Na vida de um cinéfilo, poucas coisas dão mais prazer do que ser realmente surpreendido por algum filme. Há um verdadeiro sentimento de satisfação em garimpar produções pouco conhecidas e descobrir uma pérola – seja essa o talento de um cineasta novato, a originalidade de um roteiro ou mesmo um ator que se sobressaia em uma produção medíocre. Por isso, devo dizer que fiquei feliz quando os créditos finais de As Ruínas começaram a rolar. Não pelo alívio de o filme ter chegado ao fim, mas, ao contrário, pelo fato de ter testemunhado algo diferenciado, especialmente em um gênero tão sem graça quanto os filmes de terror adolescentes.

Escrito por Scott Smith a partir de seu próprio livro (ele também o autor de Um Plano Simples, obra que deu origem ao filme dirigido por Sam Raimi), As Ruínas tem início com dois jovens casais em uma viagem de férias no México. No hotel onde estão hospedados, os quatro conhecem um rapaz alemão, que os convida a visitar as ruínas de uma pirâmide maia que não se encontra mapeada. Eles aceitam, dispostos a fazer algo além de ficar na praia e na piscina do hotel. Ao chegarem lá, porém, vêem-se isolados e presos nessa mesma pirâmide, tendo que lutar para sobreviver.

É muito fácil pré-julgar As Ruínas como mais um filme de terror adolescente idiota. A leitura da sinopse acima leva a isso. Afinal, a produção tem início semelhante a filmes como O Albergue e Turistas, por exemplo, apresentando um grupo de jovens viajando em um país estranho, envolvidos em uma situação que pode custar as suas vidas. No entanto, o roteiro de Scott Smith e o trabalho de direção de Carter Smith surpreendem, evitando o caminho fácil das meras tripas e sangue para voltarem o foco aos personagens e ao aspecto psicológico da situação na qual eles se vêem aprisionados, tornando a experiência de assistir a As Ruínas ago muito mais tenso e recompensador.

Em primeiro lugar, Smith despende um bom tempo no início de As Ruínas estabelecendo a dinâmica entre os personagens. Esse, como se sabe, é um recurso fundamental para que um suspense seja capaz de gerar tensão – se a platéia sente que conhece as pessoas do lado de lá da tela, a preocupação com o destino delas é maior. Ainda que o desenvolvimento do perfil e da personalidade de cada um dos jovens não seja profundo – pelo contrário, é até limitado – as primeiras cenas são eficientes na construção de um clima natural e realista no cenário: os jovens não se comportam somente como personagens, mas como jovens se comportariam em uma viagem de férias. Assim, o início de As Ruínas é bem-sucedido ao, pelo menos, criar identificação entre o público e aquele grupo de pessoas.

Felizmente, os lampejos de inteligência de Smith e do roteiro continuam no desenrolar da trama. Quando os protagonistas chegam à pirâmide, há, logo de cara, uma cena de morte que realmente surpreende o espectador – não somente pelo aspecto gráfico, mas pela forma com a qual ela acontece. Logo depois, os personagens encontram-se isolados no topo da pirâmide e é exatamente aí que, pouco a pouco, As Ruínas vai ganhando sua força. Carter Smith foge dos clichês do gênero ao evitar os momentos de susto repentinos, optando por construir uma tensão crescente focada mais nas pessoas do que nas mortes.

Essa é a maior qualidade de As Ruínas. O filme segue a linha de obras como O Senhor das Moscas e até Batman – O Cavaleiro das Trevas, tornando-se mais complexo do que parecia à primeira vista ao realizar um estudo sobre a natureza humana. Em As Ruínas, o grande objetivo não é mostrar os personagens sendo eliminados um a um ou como eles irão escapar, mas como pessoas normais reagem em situações extremas como essa. E tal transformação é realizada com bastante competência, de maneira gradual, uma vez que a platéia jamais duvida que eles poderiam realmente tomar as atitudes e decisões drásticas que tomam, mesmo que essas nada tenham a ver com os amigos felizes do início do filme.

A credibilidade da mudança pela qual os personagens passam deve muito também ao jovem, mas experiente elenco. Jonathan Tucker assume o papel do “líder” do grupo e acerta ao compor seu personagem em um misto de inteligência e arrogância. Já Shawn Ashmore cumpre seu papel, mas falha ao nada trazer de novo ao personagem, enquanto Laura Ramsey convence na espiral rumo à loucura pela qual Stacy passa. O grande destaque, porém, fica com a sempre talentosa Jena Malone (que já demonstrou sua capacidade em filmes como Lado a Lado e Galera do Mal), que faz de Amy uma garota vulnerável e com medo, mas que tenta manter a sanidade para sobreviver - exatamente como faria uma pessoa normal.

Por outro lado, se funciona na construção paulatina da tensão e no retrato da influência do evento nos personagens, As Ruínas derrapa em alguns exageros. Em primeiro lugar, os efeitos digitais são precários e é fácil diferenciar os momentos nos quais o filme apela para o computador e quando os efeitos são reais. Além disso, a questão das plantas assassinas rende momentos típicos de um filme B, que não condizem com a inteligência e maturidade no desenvolvimento do suspense (os instantes nos quais as flores “imitam” frases ditas pelos personagens são quase risíveis). E, para finalizar, algumas das atitudes tomadas pelos personagens parecem sem sentido, como para servir unicamente às conveniências do roteiro: não poderiam ter levado Mathias para mais longe das plantas, uma vez que ele já estava imobilizado?

As Ruínas está longe de ser um filme genial. Porém, ao se preocupar mais com o consequências do perigo no comportamento dos personagens do que com o perigo em si, Carter Smith fez de seu trabalho um mais que bem-vindo sopro de originalidade e conteúdo em um gênero praticamente assassinado por Eli Roth e Jigsaws da vida. Uma grata surpresa, com momentos genuínos de tensão, um deles envolvendo uma criança e outro uma cena de amputação. Merece ser descoberto.

Nota: 7.0

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Monday, December 01, 2008

MAX PAYNE


MAX PAYNE
De John Moore. Com Mark Wahlberg, Mila Kunis, Beau Bridges, Chris O’Donnell, Olga Kurylenko e Amaury Nolasco.


O cinema norte-americano ainda não descobriu a fórmula para realizar uma adaptação decente de um jogo de videogame. Após incontáveis tentativas, o subgênero até consegue arrecadar alguns bons milhões nas bilheterias, mas ainda peca em termos de qualidade. Ao contrário do que acontece com as transposições de histórias em quadrinhos, os filmes baseados em games ainda cometem erros básicos, atendo-se demais ao visual e à ação e deixando de lado o verdadeiro núcleo de uma boa história: a jornada dos personagens.

Max Payne é o mais recente exemplo dessa lista. Inspirado em um jogo de grande sucesso, o filme conta a história de detetive que dá título à obra. Payne, amargurado pelo assassinato de sua esposa e filho três anos antes, volta a investigar o caso após descobrir novas informações. Em uma série de eventos, o detetive é acusado pelo homicídio do ex-parceiro, enquanto tenta se aprofundar no caso do assassinato de sua mulher, que pode ou não ter a ver com questões sobrenaturais.

Dirigido pelo medíocre John Moore (O Vôo da Fênix), Max Payne sofre de um dos maiores males do cinema norte-americano: o de privilegiar a ação e o visual em detrimento do conteúdo. O aspecto técnico da produção é inegável. A fotografia de Jonathan Sela, que por vezes lembra a adotada por Robert Rodriguez em Sin City, captura com perfeição o lado sombrio, que se propunha (acredito eu) a assumir um tom noir. Enquanto isso, os efeitos especiais igualmente impressionam e algumas cenas de ação são filmadas com certa inventividade.

No entanto, as qualidades de Max Payne param por aí. O filme é terrivelmente falho no que concerne roteiro e personagens, tornando todo este apuro técnico um mero exercício de estilo, sem qualquer acréscimo ao que a obra transmite. O roteiro de Beau Thorne exibe preguiça ao apelar sem pudor a todos os clichês do gênero, inclusive o mais do que manjado momento no qual o vilão revela tudo ao mocinho para depois falhar em matá-lo (acreditem, não estou entregando nada de importante).

Além disso, o roteiro não apresenta qualquer espécie de surpresa. Desde os primeiros quinze minutos é possível prever todas as reviravoltas da trama, ainda que elas não façam qualquer sentido (por que matar o bebê, por exemplo)? O desenvolvimento do enredo é igualmente precário, especialmente no que diz respeito às descobertas de Payne. Elas simplesmente vão acontecendo, sem qualquer motivo para isso. Em determinado instante, ele vai atrás de um executivo de uma indústria farmacêutica pelo simples fato de o cara implicar constantemente com sua esposa (ou, ao menos, foi isso o que deu pra entender). Claro que sua intuição estava certa e o homem sabia de tudo o que estava acontecendo.

O mesmo vale em relação ao desenvolvimento dos personagens. Payne tem o trauma do passado com o qual precisa lidar, mas o espectador jamais entende a dor pela qual ele passa. O motivo não recai tanto sobre os ombros de Mark Wahlberg (em sua segunda bomba no ano, após Fim dos Tempos), mas no roteiro e na direção, que jamais apresentam o resultado disso. Os outros personagens, claro, são meras figuras decorativas, como Mona, que simplesmente não tem qualquer função na trama, e BB, interpretado de maneira vergonhosa por Beau Bridges.

Max Payne vem para ser apenas mais uma no rol das adaptações que ficaram aquém da qualidade dos jogos em que foram baseadas. É um filme que jamais faz com que o espectador se identifique com os personagens, tornando o elaborado visual e as cenas de ação um tédio sem fim. Hollywood continua devendo, e muito, ao mundo dos games.

Nota: 4.0

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Friday, November 21, 2008

CLUBE DA LUTA


CLUBE DA LUTA (FIGHT CLUB)
De David Fincher. Com Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonhan-Carter, Jared Leto e Meat Loaf.

"Nada mais importante para chamar a atenção sobre uma verdade
do que exagerá-la.”
Antônio Candido, na obra Literatura e Sociedade.

“Se você quer que as pessoas o ouçam, não se pode mais apenas
dar-lhes um tapinha nas costas. É preciso acertá-las com
uma marreta.”
John Doe, personagem de Kevin Spacey em Seven – Os Sete Crimes
Capitais.

ATENÇÃO: ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS. RECOMENDA-SE A LEITURA APENAS A QUEM JÁ ASSISTIU AO FILME.

Ao contrário do que muitos imaginam, é difícil a um crítico de cinema apontar um filme como favorito. O relacionamento destes profissionais com a Sétima Arte é, inevitavelmente, diferente daquele de boa parte das pessoas. Os críticos gostam, sim, de menos filmes do que a grande maioria. Porém, por mais que tenham a fama de rabugentos e metidos a intelectuais sem gosto popular, quando uma determinada obra cai no seu gosto, a adoração a ela é incrivelmente maior, exatamente pelo fato do crítico compreender o que a faz grande e as dificuldades envolvidas para atingir tal qualidade artística.

Pois, mesmo não sendo um crítico, somente um cinéfilo que gosta de tecer opiniões, ouso afirmar que Clube da Luta é meu filme favorito. Provavelmente não seja a melhor obra já produzida nestes pouco mais de cem anos de Cinema, mas é a que mais admiro e que mais impacto teve em minha vida. Aqui, pretendo explicar as razões que me levam a colocar Clube da Luta acima de incontáveis outras obras-primas, em um texto que consiga fazer jus ao filme mais importante dos anos 90 e uma das maiores conquistas cinematográficas que já tive a oportunidade de assistir.

Dirigido por David Fincher e com roteiro de Jim Uhls, Clube da Luta é baseado em um livro de Chuck Palahniuk, atualmente um dos mais cultuados escritores da literatura underground norte-americana. Para quem não conhece, a história começa com um investigador de seguros sem nome interpretado por Edward Norton (que chamarei de Narrador a partir de agora), sofrendo de insônia e cansaço em meio a suas incontáveis viagens. Certa vez, conhece no avião um vendedor de sabonetes chamado Tyler Durden (Brad Pitt), com o qual vai morar após uma explosão em seu apartamento. Tyler é tudo aquilo que o narrador não é: vivaz, divertido, corajoso, bacana. Junto a Tyler, o narrador acaba fundando um clube da luta, onde homens põem todas as suas insatisfações para fora brigando entre si. Em pouco tempo, o clube cresce, ganhando novos adeptos e fugindo do controle do seu criador.

Claro que esta é apenas uma definição básica da história concebida por Palahniuk e contada, em película, por Fincher. Clube da Luta é muito mais do que apenas um grupo de caras dando porrada uns nos outros – ainda que algumas pessoas ainda teimem em enxergá-lo desta forma. Repleta de camadas e possíveis interpretações, a obra propõe profundas reflexões sobre a maneira como vivemos nossas vidas e a forma como nos relacionamos com os outros em um mundo moderno dominado por conquistas materiais. Quem ficar apenas na primeira camada, a dos socos e dentes quebrados, pode interpretar erroneamente o filme como uma apologia à violência e ao fascismo. Quem estiver disposto a pensar e refletir, pode ter sua vida mudada.

Na realidade, esta inteligência mascarada foi um dos dois motivos para o fracasso de Clube da Luta na época de seu lançamento, pois foi vendido erroneamente ao público. Com o rosto de um dos mais populares astros hollywoodianos no cartaz, a platéia esperava mais uma produção de fácil digestão, presa a fórmulas batidas para potencializar o apelo de Pitt. A surpresa foi encontrar um filme sujo, incômodo, repleto de nuances que podem passar despercebidos na primeira vez que se assiste. Clube da Luta é uma daquelas obras que crescem exponencialmente a cada visita, onde se percebe o cuidado de Fincher e Uhls em construir uma história impecável em seus detalhes.

O primeiro grande acerto do diretor e do roteirista é ser fiel ao texto de Palahniuk, porém realizando as modificações necessárias para a obra funcionar. Diversos momentos e diálogos do filme são retirados ipsis literis do livro, mantendo vivo o espírito e a mensagem. Ao mesmo tempo, com a consciência de se tratar de mídias distintas, outros são modificados sem pudor, a grande maioria ganhando em alcance e impacto com os recursos cinematográficos. Assim, mantendo o tom ácido e a essência do trabalho de Palahniuk, e potencializando-os com artifícios visuais e a força da imagem, Fincher expande a capacidade da já perturbadora e fascinante obra literária, construindo uma verdadeira obra-prima cinematográfica.

Um dos principais exemplos para ilustrar a maneira como Fincher utiliza os recursos visuais em prol da história é a própria condição de insônia do protagonista. Enquanto no livro isso não passava de informação, a obra audiovisual realmente é capaz de transmitir a sensação de languidez em suas primeiras cenas, seja no rosto cansado de Edward Norton, em sua narração arrastada ou no tom monocromático adotado por Fincher para a fotografia. Assim, os momentos iniciais de Clube da Luta passam de maneira perfeita o estado emocional do protagonista, preso em uma vida sem qualquer espécie de altos e baixos.

Mas não é só isso. Fincher, um diretor reconhecido por sua virtuosidade técnica, também utiliza recursos visuais de forma a soltar diversas “dicas” a respeito da revelação final de Clube da Luta. Este, aliás, é um dos grandes motivos para se assistir o filme mais de uma vez: é divertido acompanhar as brincadeiras realizadas pelo diretor e perceber como estava tudo na cara da platéia desde o início. Estas dicas começam já nos créditos iniciais. Para quem não lembra, o filme parte de uma viagem por neurônios e sinapses antes de chegar à primeira cena. É, de certa forma, o primeiro indício de que a história que veremos se passa dentro do cérebro do protagonista.

E os truques de Fincher neste sentido continuam por toda a obra. Em quatro momentos, por exemplo, o cineasta apresenta rápidos inserts da figura de Tyler, antes mesmo da cena em que ambos se conhecem no avião. As duas primeiras ocorrem no consultório médico, quando o narrador fala sobre a insônia, e no grupo de apoio. Mais adiante, Tyler aparece em um comercial de TV e no aeroporto, no exato momento em que o narrador diz: “Se eu pudesse acordar em um lugar e uma hora diferentes, poderia ser uma pessoa diferente?”

De certa forma, a intenção de Fincher com as aparições de Tyler é mostrar esta segunda personalidade ganhando forma na mente do narrador. As próprias cenas nas quais elas ocorrem não são aleatórias, mas selecionadas a dedo, pois são momentos nos quais ou o narrador demonstra as dificuldades pelas quais passa ou transmite o desejo de ser outra pessoa. Assim, quando Tyler realmente parece pela primeira vez, o espectador não sabe quem ele é, mas existe uma leve noção de que o personagem já é conhecido – como uma variação da própria pessoa do narrador. Uma mensagem subliminar que é uma trapaça, mas uma trapaça deliciosa e que funciona.

As pistas deixadas por Fincher, porém, não se resumem a isso. Elas estão presentes durante todo o filme, como no fato de Tyler e o Narrador jamais interagirem com uma terceira pessoa ao mesmo tempo, nas reações de alguns personagens (como os Macacos Espaciais, quando o Narrador pergunta por que pintaram o prédio, e todas as cenas de Marla) e, principalmente, nos diálogos. Alguns exemplos: “As palavras de Tyler saindo da minha boca”, após uma discussão do Narrador com o chefe; “Por algum motivo, pensei em minha primeira briga com Tyler”, após bater em si mesmo; “Tyler é meu pesadelo ou eu sou o dele?”; apenas para citar alguns. São incontáveis momentos nos quais Fincher dá dicas do que está para acontecer.

Este artifício, aliás, acaba com qualquer possibilidade de que a reviravolta assuma um tom de sacanagem, como se Fincher apelasse para alucinações de forma a encerrar uma história sem final. Na realidade, a revelação amarra de maneira impecável não somente a própria estrutura da trama como também a mensagem que o filme pretende transmitir: a de que não somos quem gostaríamos ou esperávamos ser. Como diz Tyler naquele que é o discurso-essência da obra: “Fomos criados pela televisão acreditando que um dia seríamos astros do cinema, estrelas do rock ou milionários. Mas não seremos. E estamos muito, muito, furiosos”.

As palavras de Tyler são um despertar, tanto para os personagens quanto para o espectador. São frases duras, que não hesitam em apontar a frustração existencial do homem no final do século passado – e hoje ainda. Uma geração inteira que trabalha “em empregos que odeia para comprar coisas que não precisa”, decepcionada com suas próprias jornadas e acomodada a tal ponto de nada mais sentirem. São pessoas que sobrevivem ao invés de viver e que há muito já aceitaram que não alcançarão seus sonhos de infância e não verão realizadas as promessas que um dia lhe foram feitas. Como conseqüência, vivem uma vida anestesiada, onde cada novo dia é um verdadeiro sacrifício. Uma geração que encontra dificuldades em sentir-se viva.

Eis que surge o clube da luta. Porém, a intenção do clube não é quebrar a cara de outro como forma de liberar esta frustração contida. Bem ao contrário, o objetivo não é bater, mas apanhar. Clube da Luta é sobre sentir-se vivo, sobre ter cicatrizes, sobre novamente voltar a sentir algo. A violência na obra não passa de uma metáfora. As lutas são um artifício para os personagens descobrirem que ainda possuem sangue nas veias. Que não são apenas “o dinheiro que têm no banco ou as roupas que vestem”, mas seres humanos de verdade. O objetivo de Tyler é esse acordar. É preciso aceitar a dor, e não sempre tentar evitá-la. Em outras palavras, aceitar a vida, com todas as suas dificuldades, e não ter medo de encará-la de frente.

A noção de que Clube da Luta é sobre apanhar ao invés de bater fica clara em diversos momentos da obra. Além dos diálogos (“Só depois de perder tudo é que você será livre para fazer o que quiser”), há um momento crucial que corrobora tal visão. Este acontece na primeira briga entre Tyler e o narrador, no estacionamento do bar. Fincher dirige a cena com precisão cirúrgica, capturando com brilhantismo todo o aspecto bizarro da situação. A grande revelação ocorre no momento em que Tyler dá um soco no Narrador. No exato instante, ouve-se sons de batimentos cardíacos. Reparem como, antes, quando quem desfere a porrada é o Narrador, nada acontece. Quando o Narrador recebe o soco, escuta-se um coração batendo.

É um detalhe, um artifício sutil, mas um fato que corrobora a idéia de como Clube da Luta não é sobre bater, mas sobre entregar-se para se sentir vivo. Ao apanhar, ao perceber que a sua vidinha correta e asséptica não mais está sob seu controle, o Narrador descobre que tudo aquilo que julgava essencial não é necessário para a sua vida. Descobre que vivia por futilidade, pela idéia vazia de consumismo, que estava sendo dominado pelo que julgava primordial. Como diz Tyler, em uma das frases-chave de toda a obra: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Ao sentir o soco no estômago, o Narrador se dá conta de que não é especial como acreditava e que possui as rédeas de sua própria vida.

Neste ponto, volto à análise sobre a revelação final de Clube da Luta. Ainda que julgada como solução fácil por muitos, a idéia de que Tyler e o Narrador são a mesma pessoa não somente é perfeita, mas forma a base de toda a estrutura da obra. Tyler somente existe porque o Narrador estava insatisfeito com sua própria vida, ainda que não o soubesse. “Eu sou livre de todas as formas que você não é”, diz Tyler. Todas as amarras do Narrador, suas restrições sociais, seu consumismo, sua necessidade de viver a vida que todos esperam, acabaram criando um amigo imaginário que é o verdadeiro oposto disso: Tyler é estiloso, anarquista, divertido, inteligente. Tyler é quem o Narrador gostaria de ser.

Tal contraponto entre os dois personagens funciona de forma impecável graças, principalmente, a Edward Norton e Brad Pitt. Os dois atores assumem completamente seus papéis, compreendo a proposta provocadora da história. Assim, o Narrador e Tyler são interpretados sempre no limite do caricato, caminhando sobre a tênue linha que separa o exagero da sátira. Pitt já provou que, quando sob o comando de um bom diretor, pode ser um grande ator, e Tyler Durden é o papel da sua vida. O astro constrói um dos personagens mais icônicos das últimas décadas, combinando estilo, niilismo e divertindo-se (e ao espectador) à beça.

Enquanto isso, Norton, indiscutivelmente um dos grandes atores recentes do cinema americano, tem o papel mais difícil, pois seu personagem passa por várias transformações ao longo do filme. O ator consegue transmitir isso sem jamais perder o bom humor e o timing cômico de sua composição, tornando-se o verdadeiro centro narrativo de Clube da Luta. Desde sua narração monocórdia até a fúria liberada em uma de suas lutas, Norton abraça o papel como se estivesse representando não somente um personagem, mas toda uma geração – e o fato de seu personagem não ter nome pode ser uma prova de que Fincher realmente tinha a intenção de dar essa responsabilidade ao protagonista. O Narrador é o sr. X, um representante qualquer da massa amorfa representada no filme e da qual todos nós fazemos parte.

E, já que falei no bom humor muito bem defendido por Norton e Pitt, vale afirmar que Clube da Luta é, acima de tudo, uma sátira. Ou seja, ainda que fale sobre um tema realmente difícil de lidar, Fincher apresenta tais cicatrizes do homem moderno de forma, se não leve, descontraída. Ou seja, o roteiro e a direção são inteligentes o bastante para não realizar um filme expositivo demais para transmitir sua mensagem, colocando-a dentro de uma história maluca que, muitas vezes, mostra o contrário do que quer dizer para que o espectador possa tirar as suas próprias conclusões.

Para que isso seja alcançado, é fundamental um diretor hábil, com completo domínio não somente da técnica, mas dos recursos dramáticos. David Fincher já provou ser capaz disso. Maior que a sua ousadia em assumir um projeto tão arriscado quanto Clube da Luta é a sua capacidade em contar uma história como essa. Fincher se mantém fiel à obra na qual o filme é baseado: um livro extremamente ágil, com frases curtas, parágrafos e capítulos pequenos. O cineasta transmite esta sensação com seu estilo visual e uma edição cinética, sempre com movimentos de câmera ousados e cortes rápidos.

Cada cena parece pensada ao máximo antes de ser executada: assim, não é por acaso que sentimos algo de surreal quando o Narrador conversa com Tyler no porão e Marla ao mesmo tempo, assim como não é acidente a languidez dos momentos iniciais do filme, representando a insônia do protagonista. Tudo é realizado dentro dos objetivos de Fincher, com as cenas adquirindo significados, construindo uma narrativa impecável, que cresce em urgência e que carrega o espectador num piscar de olhos até o final.

E sua técnica irrepreensível vale também para as cenas de luta. Esqueçam as brigas coreografadas e limpas que estamos acostumados a ver no cinema. Em Clube da Luta, os embates são crus, viscerais e realistas. O sangue é escuro, o som dos socos são secos e os golpes são desajeitados, típicos de quem nunca lutou na vida. A violência é, sim, forte, mas está lá para cumprir um objetivo. Ela faz parte da mensagem de Fincher sobre ir ao fundo do poço, sobre como “somente depois de perder tudo é que você consegue fazer qualquer coisa”. A utilização da violência é o modo de Fincher “exagerar sobre a verdade” para realmente chamar a atenção. Afinal, o que é mais perturbador: assistir socos na cara ou ouvir alguém dizer que sua vida não vale nada?

Há ainda, dois pontos importantes a serem analisados dentro do contexto de Clube da Luta: os grupos de apoio e Marla. Em relação ao primeiro, é importante refletir, pois ilustra a condição do protagonista antes de “conhecer” Tyler. Até então, o Narrador tentava preencher sua vida com coisas sem sentido, não entendendo de onde vinha o seu vazio – e, conseqüentemente, sua insônia. Nos grupos de apoio, entrando em contato com aquele tipo de sofrimento e honestidade, ele começou a sentir valorizado, seja por ver outras pessoas em situações piores que a sua, em uma espécie de catarse, seja pelo fato de se sentir importante e valorizado com a atenção que elas oferecem.

Enquanto isso, Marla funciona como o verdadeiro catalisador da história. É como o Narrador diz nos primeiros segundos do filme: “Tudo tem a ver com uma garota chamada Marla”. Tyler só aparece de fato após ele conhecer Marla. É possível interpretar que o alter-ego só ganhou vida por causa dela. Foi para impressionar Marla, para poder conquistá-la, que o Narrador criou uma segunda personalidade na qual teria a confiança necessária para poder ter um caso com Marla. Se alguém quiser ir mais longe, pode inclusive afirmar que Clube da Luta é uma história de amor, girando em torno do relacionamento entre o Narrador e Marla.

Uma das principais críticas feitas ao filme é que ele se perde em seu terceiro ato, quando da criação do Projeto Caos. Tal ponto de vista é equivocado, uma vez que o Projeto é a evolução natural da história. A idéia por trás dele não é tanto causar o caos na sociedade quanto o de fazer as pessoas perceberem como suas vidas são vazias. O projeto é uma espécie de evolução do clube da luta, mas, ao invés de despertar cada indivíduo para a vida, a intenção é acordar a civilização inteira do estado de anestesia em que se encontra. O que o clube fazia por cada membro, o Projeto faria para a sociedade como um todo.

Clube da Luta é tudo isso e um pouco mais. É um retrato mordaz de uma existência cada vez mais insuficiente, resultado de um mundo que tenta reprimir tudo aquilo que faz do ser humano o animal único que é. Fincher, assim como Palahniuk no livro, não faz isso com palavras e imagens gentis, mas através de metáforas poderosas e perturbadoras. Quem quiser assistir Clube da Luta sem refletir sobre tudo o que ele representa, apenas se divertindo com o bom humor e as cenas incrivelmente bem filmadas, certamente irá gostar da obra. Porém, deixará de compreender a significância de um dos filmes mais importantes das últimas décadas.

A sensação que fica após assistir Clube da Luta é a de que estivemos no porão de algum bar brigando com o próprio David Fincher. Tal qual os personagens, apanhamos e saímos exaustos, mas adquirimos uma nova consciência sobre nossas vidas e sobre o que realmente é importante.

Quantos filmes são capazes de fazer isso?

“Sua cabeça vai surtar,
Mas não há nada lá dentro
E você vai se perguntar:
Onde está minha mente?”

Trecho da música “Where’s my Mind”, do Pixies, ouvida ao
final de Clube da Luta.

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Wednesday, November 19, 2008

007 - QUANTUM OF SOLACE


007 – QUANTUM OF SOLACE (QUANTUM OF SOLACE)
De Marc Forster. Com Daniel Craig, Mathieu Almaric, Olga Kurylenko, Judi Dench, Gemma Atherton, Giancarlo Giannini e Jeffrey Wright.

Após décadas sendo fiel à mesma fórmula, a série 007 entrou em um novo momento em 2006, quando os produtores decidiram partir do zero e reinventar completamente o personagem. Claramente influenciada pela trilogia Bourne, a franquia apostou, em Cassino Royale, em uma trama mais realista e violenta, além de transformar o herói intocável James Bond em um espião de carne e osso, repleto de falhas. O resultado foi um dos melhores filmes – se não o melhor – e a maior bilheteria mundial de toda a história da série.

007 – Quantum of Solace é uma continuação direta da produção anterior, começando poucos minutos após o encerramento de Cassino Royale. Agora, Bond, ainda sofrendo pela morte de Vésper, toma conhecimento de uma organização poderosíssima chamada Quantum, que não apenas esteve por trás dos acontecimentos do primeiro filme, como também possui interesses obscuros em um golpe de estado na Bolívia. Enquanto busca sua vingança, o agente une-se à bela Camille para se aproximar de Dominic Greene, um dos líderes da Quantum.

Desta vez, quem assume o comando do navio é Marc Forster, cineasta tão talentoso quanto versátil, responsável por produções com temáticas distintas como A Passagem, Em Busca da Terra do Nunca e O Caçador de Pipas. Arriscando pela primeira vez no gênero ação, Forster demonstra novamente sua capacidade, entregando um filme ágil e eficiente, ainda que possua sua parcela de problemas. Quantum of Solace é uma produção que funciona sozinha, mas perde quando comparada à aventura anterior dirigida por Martin Campbell.

A grande surpresa fica por conta das ótimas cenas de ação. Em momento algum, Forster demonstra inexperiência no assunto, criando momentos intensos e que exploram o caráter bruto do novo James Bond. A escolha em utilizar cortes rápidos e tomadas com a câmera na mão pode ser perigosa, mas em Quantum of Solace a opção realmente funciona de forma a aumentar a tensão e refletir a urgência das situações – algo semelhante ao que Paul Greengrass fez nas duas últimas produções de Jason Bourne. Como resultado, é impossível não grudar as unhas nas poltronas do cinema na perseguição de Bond pelos telhados ou aplaudir a excelente seqüência passada na ópera.

Além disso, Forster imprime um ritmo verdadeiramente intenso a Quantum of Solace. Quando não está correndo, dirigindo ou explodindo coisas, Bond está conseguindo novas informações que fazem a trama andar. Deste modo, a história nunca fica parada. Não há um mero momento de descanso ou tédio no filme. Pelo contrário, o espectador é jogado de uma cena de ação para a outra sem tempo para respirar, tendo que ficar atento para não se perder no desenvolvimento do enredo.

Este, porém, não é tão elaborado quanto em Cassino Royale. Escrito pelos mesmos Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade, o roteiro de Quantum of Solace não reserva grandes surpresas e é simples em seu desenvolvimento, optando por não explicar muito sobre a Quantum – o que provavelmente será realizado no(s) próximo(s) filme(s). Esta opção, aliás, resulta em um momento tanto arriscado como estranho, quando Forster opta por não mostrar o interrogatório de Bond com um dos vilões, quando ele revela informações sobre a organização. É, de certa forma, uma sacanagem com o espectador, pois os personagens terminam o filme sabendo mais sobre a Quantum do que a platéia.

O roteiro peca também no desenvolvimento do personagem. Ainda que Daniel Craig continue perfeito no papel, combinando o aspecto irascível e frio com certa vulnerabilidade emocional, a trama de Quantum of Solace não acrescenta muito ao novo Bond. Há, claro, a questão da busca pela vingança e do ressentimento pelo que aconteceu com Vesper, mas isso é apenas mencionado por outros personagens três ou quatro vezes, sem qualquer reflexo efetivo no personagem. Bond continua muito mais humano e falível do que em obras anteriores – agindo por impulso, errando com freqüência e sempre prestes a explodir –, mas essa percepção ainda é resquício do que conhecemos no filme anterior. Quantum of Solace não leva o personagem adiante.

O mesmo vale em relação aos outros personagens. O roteiro ainda tenta trazer uma história de fundo para Camille, mas essa é tão clichê que só resta mesmo se impressionar com a beleza de Olga Kurylenko. Enquanto isso, Mathieu Almaric não tem muito sobre o que trabalhar, uma vez que o desenvolvimento do seu personagem é fraco, e a também bela Gemma Aterton é um artifício totalmente dispensável à trama: sua presença existe unicamente para ir para a cama com Bond e para uma interessante (e atualizada) homenagem a 007 Contra Goldfinger.

Por outro lado, Quantum of Solace acerta ao dar um passo à frente na construção do relacionamento entre Bond e M, algo que já havia sido “anunciado” em Cassino Royale. Como é dito no próprio filme em certo momento, a dinâmica entre os dois é quase de mãe e filho. M recrimina Bond, ele não dá a menor bola e os dois continuam se amando como antes. A relação entre eles resulta em alguns dos melhores momentos de Quantum of Solace – e não deixa de ser interessante ver uma personagem hermética como M em casa passando creme no rosto.

Abordando ainda um contexto político sobre o petróleo e o papel dos EUA nos regimes ditatoriais sul-americanos, Quantum of Solace é um filme com seus próprios méritos, mas pálido em comparação ao seu antecessor. Possui bons diálogos, cenas de ação bem realizadas e um ótimo protagonista, mas nada acrescenta ao que havia sido apresentado dois anos atrás. Se Cassino Royale foi uma revolução na série, a nova produção não passa de simplesmente mais um – ainda que eficiente – exemplar.

Nota: 7.0

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