Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

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Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Monday, May 11, 2009

O inventor do copo.

Todo mundo já ouviu falar de Alexander Graham Bell ou Thomas Edison. Até mesmo quem não sabe que eles criaram o telefone e a lâmpada elétrica sabe que os dois foram inventores. Sabem que introduziram no mundo alguma coisa importante, fundamental às nossas vidas atuais. São celebridades. São quase como o David Beckham e o Brad Pitt da galáxia dos inventores. Fosse nos dias de hoje, provavelmente estariam fugindo de paparazzi e tendo seus vídeos de sexo divulgados na internet.

Mas claro que Bell e Edison não são os únicos que carregam a palavra “inventor” na carteira de trabalho. Na verdade, por estudarem e experimentarem muitos anos até que seus projetos estivessem prontos, talvez estejam mais para cientistas do que inventores. Digo isso porque inventar é, em essência, criar. É partir de uma inspiração para construir algo até então inédito. As “invenções” de Bell e Edison não se encaixam nessa definição. Elas se tornaram realidade não graças a uma sacada, a uma única ideia, mas a um processo evolutório, com muitos erros e acertos antes do produto final.

Há, porém, um tipo de inventor de verdade, mas que não usufrui da mesma popularidade desse ilustre par. Uma espécie subestimada, que jamais teve o valor que merece. São aquelas pessoas que, graças a um insight brilhante, graças a um momento abençoado de inspiração, tiveram ideias que hoje são indispensáveis em nossas vidas. São heróis anônimos, esquecidos pela história, que ninguém conhece. São gênios de um momento único, cujas invenções hoje são tão ou mais essenciais do que o telefone ou a lâmpada. Mentes brilhantes como aquela inventou, por exemplo, o copo.

Pensem por um instante no copo. Reflitam sobre como deveria ser difícil para as pessoas tomarem água ou qualquer outro líquido. Provavelmente, usava-se as mãos ou se bebia como cachorro. Até que alguém, em algum instante iluminado, pensou lá com seus botões: “E se a gente fizer recipiente para reter e facilitar a ingestão do líquido?” Brilhante é pouco. Gênio. Hoje, isso parece óbvio. Mas, em algum lugar, em algum momento há muito tempo atrás, alguém teve essa ideia. Alguém foi o primeiro a pensar nisso. E o nome dessa pessoa desapareceu em meio à poeira da história.

O inventor do copo não é o único. São dezenas, centenas de criações hoje intrínsecas às nossas vidas, mas que jamais damos o valor necessário por parecerem comuns. Encaramos essas facilidades como coisas que sempre existiram, que sempre acompanharam o ser humano. São invenções como, por exemplo, a tampa da privada (quem já sentou direto na porcelana fria sabe a diferença que faz), a haste para óculos (imagino alguém pensando: “E se a gente pendurar isso de algum jeito atrás das orelhas?”) ou uma simples bola (fundamental em praticamente todos os esportes praticados hoje).

Os exemplos são muitos. São criações que fazem parte do dia-a-dia há anos, séculos, milênios, mas que nunca paramos para pensar sobre como surgiram. Nunca lembramos que alguém deve ter pensado nessa solução em um momento de necessidade. Infelizmente, quem foi jamais saberemos. Mas essas mentes merecem homenagem e reconhecimento. São invenções fundamentais e indispensáveis. Invenções que, certamente, deixariam até Bell e Edison orgulhosos e – quem sabe? – com um pouquinho de inveja.

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Friday, December 12, 2008

Péssimas notícias.

Estou triste. Devo ler jornais com assiduidade há aproximadamente uns dez anos e acho é a primeira vez que leio uma manchete como a de hoje. Dizia a primeira página do periódico: “Governo reduz impostos”. Sim. Governo. Reduz. Impostos. Para quem acreditava impossível estas três palavras se unirem em uma mesma sentença, especialmente nessa ordem, finalmente chegou o dia.

O que vamos falar agora? Eu, os escritores de verdade, os reclamões de plantão. Como iremos criticar essa notícia? Antes, acreditávamos nos jornais. Era possível confiar neles. Abríamos suas páginas e a indignação era certa. Senadores gastando dinheiro do povo para sustentar amantes, banqueiros desviando milhões, deputados dançando ao ver colegas absolvidos. Era rotineiro. Era garantido. Era a nossa fonte diária para falar mal dos mandatários.

Pois então leio a notícia que os engravatados vão reduzir IOF, IPI e, com isso, liberar algo em torno de 8,4 bilhões de reais para serem gastos em consumo. Simplesmente toda e qualquer possibilidade de reclamação cai por terra. Tudo bem, claro que eles só tomaram tal atitude para salvar a si mesmos. Nada mais é do que um reflexo da crise para que toda a economia não seja arruinada. Se tudo estivesse bem, para eles, diminuir nossos impostos nem passaria pela cabeça.

Mas, seja qual for o motivo, a verdade é que isso foi feito. E estou furioso. Onde já se viu políticos atenderem as reivindicações e expectativas do povo? Sinto saudade dos momentos áureos em que podíamos criticar sem sentir qualquer parcela de culpa. Fazíamos com a consciência tranqüila. Era quase uma parceria. Um acordo tácito. Eles roubavam lá, a gente cutucava aqui. Onde foi parar essa honra? Será que precisaremos colocar por escrito esse contrato?

Torço para que isso seja uma notícia isolada. Somente hoje. A partir de amanhã, quero escândalos, quero falcatruas. Quero políticos explorando o povo, fazendo de tudo para permanecer no poder. Quero meus direitos pisoteados. Quero a volta das notícias que dão assunto. Se continuarem publicando coisas boas, não teremos mais o que falar. O assunto das rodas de boteco será somente futebol e mulher, nada de política. Eu não quero uma vida assim.

Estou muito, muito triste.

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Monday, December 01, 2008

Sem medo de mudar.

Já li por aí que boa parte das pessoas têm medo de mudanças. Claro, por pessoas, leia-se nós, habitantes de países subdesenvolvidos e que vivemos em meio à selva. Os Estados Unidos, por exemplo, não têm esse medo. Ou melhor, os estadunidenses. Esses adoram mudanças. Não acabaram de eleger um presidente por causa disso? O cara fez toda a campanha convencendo as pessoas de que as coisas iriam mudar em relação ao que o Jorginho fizera nos oito anos anteriores. E foi eleito. Até na cor da pele o governo mudou.

Claro, o cara que esteve à frente dessa campanha toda não poderia ter medo de mudar. Afinal, ele injetou esperança no coração de milhões dizendo que iria renovar tudo, que a corja do Dáblio não teria mais lugar e coisa e tal. Eu o ouvi dizer isso, ninguém me contou num telefone sem fio. Claro que acreditei. Por que não iria? Ele é um pai de família, marido respeitável da dona Michelle, já viveu humildemente. Falta experiência, sobra vivacidade. Um mudador nato.

E elas já começaram, eu acho. Começaram com as nomeações de seu gabinete. Indicou gente arraigada em Washington, inclusive caras que trabalhavam junto com Jorginho Dáblio. A mudança, creio, virá. Talvez no tapete dos escritórios, na posição dos móveis, no quadro na parede. Mas ela virá, tenho certeza. Acredito nele.

Hoje, li que ele disse que a retirada das tropas do Iraque talvez leve mais tempo do que se esperava. Grande mudança. Na campanha, dizia que as retiraria imediatamente. Mudança no discurso também é mudança, ora bolas. Enquanto isso, outras mudanças vão ocorrendo. A de jovens vivos para jovens mortos e a de famílias felizes para famílias em pranto. Sorte que ele não tem medo disso.

E hoje também sai a notícia de que indicou Monica Lewi..., ops, Hillary Clinton para o cargo de Secretária de Estado. Essa sim é uma mudança genial, daquela que ninguém esperava. Depois de tanto brigarem e se achincalharem nas prévias, agora estão de mãos dadas correndo em um campo de flores silvestres. Mudança, claro. Mudou todas as expectativas de quem votou nele por não gostar da sra. Bill.

“A mudança virá de mim”, disse ele ao nomear os assessores. Ufa, respiro aliviado. Eu estaria me cagando nas calças com tanta novidade.

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